João Adolfo Guerreiro

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Textos


Sem novidade no front

O que mais falar sobre o processo em curso de impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT)? Pesquisando sobre o tema em meus textos aqui no Portal em 2015 e 2016 (*1), para evitar me repetir ad infinitum, cheguei ao óbvio ululante, como diria o saudoso Paulo Francis (o primeiro jornalista a denunciar a corrupção na Petrobrás, no governo FHC - PSDB, e ter infartado por causa disso): “Sem novidade no front”.

Agora é tomar posição: ir para a rua, se é “contra o golpe” ou se é “a favor do impeachment”; ou ficar em casa assistindo pela TV e pela internet, se não tem opinião consistente formada. Até o PMDB já tomou posição! A dele, como sempre: depois de José Sarney e de Itamar Franco, é a vez do vice Michel Temer assumir no lugar do (a) presidente(a) eleito (a).

Esse é um jogo onde as cartas já estão todas sobre a mesa. Todas elas marcadas. Desde 1954 e 1964! Razão tinha Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa" (coincidência: hoje é 1º de abril). Simplificando: contra um governo de centro-esquerda (lembram das Reformas de Base?), em 1964, grandes empresários, imprensa, amplos setores da classe média, do Judiciário, partidos de direita, etc. Até a OAB, igualmente, havia apoiado o golpe (sobre 1964 não há controvérsia, foi um golpe mesmo), com protagonismo central dos militares. Os militares foram substituídos, na versão 2016, por setores do Judiciário.

Os defensores do governo também não mudaram: partidos de esquerda, centrais sindicais, movimento popular, estudantil, etc. O grande problema hoje, para o governo em exercício, é o amplo repúdio de setores da população: cerca 4 milhões (*2) de pessoas nas ruas dia 13 de março! Os governistas reagiram no dia 18, levando 300 mil (*2), e ontem, além de vários atos pró-democracia de entidades durante a semana. O que mudou: hoje temos a internet e as redes sociais, o que contrabalança o poder da grande imprensa; o PT, que cresceu com um discurso de probidade, está todo enrolado nas investigações de corrupção em curso, junto com aliados como PMDB e PP e, até mesmo, com partidos da oposição, num “propinoduto” que, estão dizendo agora, remonta até o governo Sarney. Se irem mais fundo, creio, podem chegar aos governos militares. Deodoro e Floriano! Cuidado Dom João VI!

E o rito do impeachment segue, devidamente regrado pelo STF, mas com motivações claramente políticas (“golpeachment”): é conduzido por Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara dos Deputados, que é réu por corrupção no STF (Dilma Rousseff não é) e iniciou o processo por vingança pelo PT ter apoiado investigação contra ele no Conselho de Ética da Câmara. Aliás, Cunha usa de seu cargo para, há mais de 150 dias, protelar os trabalhos do Conselho. Ele pode: ao contrário da presidente, tem apoio político consistente dos deputados!

Por outro lado, as “pedaladas fiscais” apontadas pelo TCU são o “motivo” para o pedido de impeachment que ora tramita. Os governos anteriores fizeram sistematicamente as pedalas. Governadores as estão fazendo! O relator do processo no TCU, Augusto Nades (ex-deputado federal do PP), é citado na Operação Zelotes como suspeito de ser um dos intermediários do suposto suborno à funcionários do Carf, da Receita Federal, pela RBS, a fim de perdão de dívidas com o fisco, notícia que, aliás, não sai muito na ZH.

E até o “The Day After” tende a ser o mesmo: ajuste fiscal (mais duro que o do governo Dilma) com redução de direitos trabalhistas. Ou o que poderia se esperar de mudanças de governo efetivadas por setores liberais? A volta aos anos 1990, claro! E eles já estão por aí, vide o que funcionários públicos tem passado em governos como RS (PMDB), PR (PSDB) e SP (PSDB) e o que aguarda os trabalhadores da iniciativa privada, como o projeto de terceirização das atividades-fim que tramita no Senado (tinham esquecido dele?). A situação futura dos programas sociais, uma novidade hoje, ficará em aberto.

Escrevi demais. E acabei me repetindo. Não é culpa minha, é da história e do assunto, que se repetem ad infinitum...


(*1) - Foram 09 textos, a partir de 2015:
- Águas (turvas) de março  12/03/15 http://www.souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=5167473
- Impeachment de Dilma pode ocorrer no curto prazo 16/03/15 http://www.souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=5171955
- A ampliação da terceirização prejudicará os trabalhadores 09/04/15 http://www.souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=5200716
- O silêncio dos inocentes 23/04/15 http://www.souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=5217593
- Atenas, RS : calote no FMI e na polícia 08/07/15 http://www.souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=5304132
- Dilma e Sartori: habermas explica 08/10/15 http://www.souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=5408274
- Golpeachment à vista 03/12/15 http://www.souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=5469082
- Golpeachment em andamento 10/12/15 http://www.souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=5475865
- Muita Calma nessa hora 18/03/16 http://www.souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=5577385

(*2) - Uso os dados do site g1, "mapa das manifestações" (http://especiais.g1.globo.com/politica/mapa-manifestacoes-no-brasil/31-03-2016/pro/), priorizando os dados da polícia. Arredondo para cima, devido a cidades como Belém e RJ, que levam bastante público às manifestaões pró e contra, não terem números divulgados. Em SP, uso sempre os dados do Datafolha e não os da PM.


Texto publicadfo hoje na seção de Opinião do Jornal Portal de Noticias, nas versões online e impressa: http://www.portaldenoticias.com.br
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 01/04/2016
Alterado em 03/04/2016


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