Tinha um colega de serviço na PASC, o Giovani "Palhaço", que era sósia do ator Gene Hackman. Uma figura, o Palhaço, mas bah. Quando o astro faleceu, lembrei dele.
Na segunda-feira o encontrei na comunidade Lado Feliz da Susepe, no WhatsApp, tirando sarro dos gremistas, colorado que é. Comunidade interessante, a velha guarda nela se reúne virtualmente pra trocar ideias e provocações, dá pra dar umas risadas lendo. A primeira postagem que vi ao entrar não era muito "lado feliz", eis que sobre a mulher que matou o marido e colocou o corpo esquartejado num freezer.
Escrevi umas bobagens lá pra marcar posição e provocar os vermelhos e aproveitei pra perguntar pro Giovani:
- E daí, Giovani, tu ainda é sósia do Gene Hackman?
- Ah, mas bem mais velho - teclou em resposta.
Sim, até porque Hackman já estava com 95 anos! A mulher, 30 anos mais nova, morreu repentinamente e Gene, com Alzheimer, ficou sozinho em casa, falecendo dias depois. Que coisa, igualmente longe de um "lado feliz".
Gene faz uma pá de filmes, mas os que mais me marcaram foram Operação França (1971), Mississipi em Chamas (1988) e os Imperdoáveis (1992). Já escrevi sobre Operação França pra vocês aqui em agosto de 2023 (Operação Exorcista para o findi dos pais). Um trecho: "Lembro de uma cena muito boa, logo após o policial Popeye (Hackman) ser libertado pela quadrilha de Charnier (Fernando Rey), que o sequestrou e o tornou viciado. Ele está no carro com o detetive francês Henri Barthelemy (por Bernard Fresson) e vê uma moça pela calçada comendo um sorvete. Popeye aponta para ela e diz que quer 'aquilo'. Henry se espanta e diz que não, pois 'aquilo' o mataria no estado de debilidade em que se encontrava. Popeye retruca que 'aquilo' era o sorvete, não a mulher. Como vi o filme ainda criança na TV, não saquei o duplo sentido e pensei: 'Ué, mas o que mais ele poderia estar querendo além do sorvete?'. Achei bobo o francês por não sacar tal obviedade, eh eh eh eh" - aqui me referia a uma cena de Operação França II (1975).
Uma sequência que seguido assisto no You Tube por a considerar antológica dentro de um filmaço, é a final no saloon em Os Imperdoáveis. É muito conhecida, mas a deixarei no link abaixo pra quem quiser curtir. Hackman e Clint Eastwood estão ótimos. Gene ganhou um Oscar por esse filme e outro por Operação França. Entretanto, escrevi tudo isso acima como introdução para o que realmente me levou a produzir esse texto: a crônica O que morre primeiro? O homem ou o mundo ao redor?, publicada pela escritora Sonia Zaghetto em seu perfil no Facebook e abordando o falecimento de Hackman.
Embora igualmente não seja sobre o "lado feliz", é magistral, pungente, reflexiva, coisa de gente grande nas letras. Vocês podem conferi-la integralmente pelo link acima, mas eis um trechinho editado: "Gene Hackman morreu antes de seu coração parar de bater. Teve fome. Teve sede. E ninguém veio. E então Gene Hackman, o grande Gene Hackman, morreu. Não de doença, não de fome. Morreu de esquecimento. Qual a verdadeira morte? A do último suspiro ou a do instante em que ninguém percebe a sua falta? Gene Hackman morreu sozinho. Um dia, todos nós estaremos solitários no momento do encontro com o nosso destino final. É inevitável. Mas para Gene a morte chegou de um jeito mais lento, mais esquecido e doloroso. Ninguém bateu à porta. Nenhum amigo ligou. Nenhum familiar estranhou a ausência. Betsy, sua esposa, morreu primeiro. Hantavírus. Uma doença rara, transmitida pelo pó das fezes de roedores. Pouco antes ela foi à farmácia e levou o cãozinho ao veterinário. Não sabia que aquelas eram suas horas finais, (...). De repente, o fim. Fulminante, sem aviso, sem tempo para despedidas e providências. Gene ficou sozinho, sem entender. Por sete longos dias, perambulou pela casa sem saber o que fazer, sem lembrar como agir. Aos 95 anos, o Alzheimer já havia apagado parte de sua memória e a capacidade de pedir ajuda. Talvez tenha, no fundo da mente, sentido o vazio. Talvez tenha chamado por Betsy. Mas isso não se soube ou saberá, porque ninguém estava lá. Ninguém veio. O que acontece quando um homem se torna invisível?"
Recomendo que a leiam integralmente, é uma crônica daquelas, supimpa. Fácil de encontrar, até hoje de manhã era ainda a primeira postagem na linha do tempo de Sonia Zaghetto. E abaixo os trailers dos filmes citados.
Operação França (1971) - trailer
Operação França II (1975) - trailer
Mississipi em Chamas (1988) - trailer
Os Imperdoáveis (1992) - cena final, dublada