João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Michael Jackson, um grande artista

I -
Estava eu sentado na Lan House utilizando o Orkut, dia 25, final da tarde, já praticamente noite. Fui pesquisar algo no IG e, depois, fui abrir o Ibest. Como vocês sabem, IG e Ibest tem a mesma página inicial, mas, ao realizar a troca, vi que a manchete principal havia sido alterada naquele momento. Anunciava a morte de Michael Jackson.

Fiquei olhando, cheio de surpresa. “Mas ele é novo ainda!” Nem sabia que ele já tinha cinqüenta. Falei pra minha filha, que estava acessando outro computador.
Uma avalanche midiática seguiu-se nos dias seguintes, abordando o repentino falecimento de Jackson. E as pessoas na rua ecoavam bastante o assunto. Realmente, ele era um ícone mundial gigantesco, sendo que sua morte repercutiu pra além do ocidente. Pela mídia, em todo o mundo se vê homenagens ao artista.


II - Eu acompanho a trajetória de Michael desde o Jackson's Five. Via um desenho que dava na TV sobre o grupo quando criança. Na minha adolescência ouvia muito heavy metal: Iron Maiden, AC/DC, Led Zeppelin, logo não curti o início de sua carreira solo. A não ser o boom que se sucedeu ao grande LP (era ainda o tempo do vinil!) Thriller. Realmente, a esse “acontecimento”, que deu-se forte em 1983, nenhum jovem escapou ileso, ninguém ficou alheio, seja pra aderir ou para se contrapor, mas a indiferença foi impossível. Também a própria ascenção da MTV e do requinte dos clips musicais entrou nesse processo, e Jackson, com seus vídeos em grande estilo, entrou nessa onda de cabeça.
O LP trazia duas participações especiais que atingiam em cheio o público do rock e do heavy: Paul McCartney, dos Beatles, e Eddie Van Halen, guitarrista do VH. O ex líder dos Beatles participou na faixa “The Girls is Mine”, enquanto que o gênio da guitarra emprestou um riff arrasador e vigoroso à faixa “Beat It”, além de ter executado um solo antológico na mesma música (dizem que foi gravado em apenas um take!!!), com todos os requintes técnicos possíveis e imagináveis que faziam a cabeça dos guitarristas do início dos anos 80, adeptos da velocidade e do virtuosismo exacerbado.
E essa mistura que levou a já bem sucedida carreira solo do ex-vocalista do Jackson's Five ao cume do estrelato na música pop nos anos 80 foi a tônica do trabalho de Michael: junto com o grande produtor Quincy Jones (um cara muito preparado e que sabia demais o que estava fazendo), revitalizou a soul music (e a música negra norteamericana em geral) da qual os J5 eram oriundos, agregou texturas de intrumentos eletrônicos e arranjos originais, flertando também com a arena do rock.. As músicas de Jackson eram harmonicamente simples, sem enxurradas de acordes complicados. O toque de gênio estavva nos arranjos acima descritos e na interpretação sempre requintada de instrumentos e vocais, usados sempre com muita inteligência e sensibilidade.
Micheal, ao longo da carreira, trabalhou com outros roqueiros de primeira grandeza: outra parceria com Paul (Say say say), com Mick Jaeger, com o guitarrista Slash, do Guns N’Roses (Give it to Me, Black or White – aquele riffizinho simples e gostoso de guitarra da música é dele).
Não bastasse esse tino de concepção cultural, ele ainda era um ótimo dançarino, compositor e cantor dotado de uma voz privilegiada, afinadíssimo e de belo timbre, à qual ele aliava uma capacidade perfeita de interpretação. O cara era ímpar mesmo, não tinha jeito, embalara os anos 70 e se apossou soberano dos 80. Nenhum outro artista do planeta conseguiu a repercussão alcançada por ele, e isso, estamos vendo, não foi obra do acaso, foi um somatório de vários talentos envolvidos, todos com muito preparo e inteligência. Logo, não há como lhe negar o cetro de Rei do Pop.


III - Todavia, nada nem ninguém é pra sempre. E Jackson se foi. O maior ícone musical do século vinte, com toda a certeza. Da música negra não há dúvidas, indo além de gênios como Ray Charles, outro grande revolucionário, que uniu gospel, soul, country e blues num trabalho paradigmático.
Embora não tenha tido a importância cultural dos Beatles, por exemplo, que surgiram e foram os maiores numa época de mudanças de costumes e contracultura, nos efusivos anos 60, os superou em popularidade e poder de fogo na industria cultural midiática de entreternimento calcada no eixo EUA/Reino Unido que se cristalizou dos anos 50 pra cá, alcançando vendagens de discos superiores as dos garotos de Liverpool. Superou também nesse ponto o outro grande ícone desse tempo, o grande mito Elvis Presley, o Rei do Rock.
Notemos, todavia, que Michael, mesmo superando-os, colocou-se também como herdeiro desses ícones culturais. Atos permeados de simbologia o atestam:
Casou com a filha de Elvis Presley. Imaginem, o Rei do Pop casado com a Princesa do Rock? Se tivessem tido filhos, imaginem a junção artística materializada biologicamente num ser humano de carne e osso? Mas essa criança, esse “príncipe”, não veio ao mundo. O casamento durou dois anos e não gerou esse tipo de fruto. Mas o ato simbólico foi consumado no imaginário popular, inclusive os dois apareceram seminus num clip do cantor.
No caso do outro grande ícone pop do século XX, os Beatles, Michael, além de se aliar por duas vezes em parceria musical com o líder Beatle remanescente Paul (Lennon morreu em 1980), Michael comprou todos os direitos autorais das músicas do Beatles.
Pronto, o Rei do Pop dominava o mundo da cultura da indústria do entretenimento. Era o maior e, não bastasse isso, tornou-se simbólica e concretamente o herdeiro dos maiores. E isso foi algo realmente muito grande, um feito digno de um grande artista, de um negrinho pobre mas talentoso nascido em 1958 em Indiana, nos Estados Unidos, descoberto, com os irmãos, pela cantora negra Diana Ross e bancados pela referencial gravadora Motown, selo antológico da música black de Detroit que marcou toda uma época nos EUA.


IV - Jackson foi um artista negro revolucionário, assim como Ray Charles. Mas eu o compararia a outros artistas, aos quais ele não é comumente ligado.
A cantora francesa Edith Piaf teve uma trajetória artística e pessoal parecida com a de Jackson. Um talento vocal impressionante, uma infância conturbada. Claro, Piaf foi estrela num momento (anos 40 e 50) em que indústria cultural midiática ainda era apenas um traque e não esse arsenal nuclear que é hoje, com TV, vídeos, Internet e o escambau. Óbvio que ela também foi estrela num período em que a Europa ainda era o centro cultural e intelectual do mundo, principalmente a França, e os EUA estavam começando a galgar o posto hegemônico que hoje ocupam culturalmente no ocidente. Outro detalhe curioso: Piaf também foi degenerando fisicamente ao chegar perto dos 50 anos (morreu com 47). Aparentava 20 anos a mais. Bom, Michael também teve uma transformação física acentuada nesses últimos anos, bem o sabemos por sermos seus contemporâneos.
O outro foi o grande guitarrista americano Jimi Hendrix, o maior gênio da guitarra até hoje (em segundo lugar veio Eddie Van Halen, outro dos “parceiros” de Jackson). Hendrix, além do talento puro, da técnica impressionante e da concepção revolucionária de timbres e de técnicas na guitarra, tinha uma expressão corporal acachapante aos olhos do publico. Não era um dançarino, como Michael, mas a sua presença cênica era parte integrante de sua expressão artística. E daí digo: dá pra imaginar Jackson sem a sua dança? Não eram também uma coisa só, a dança e a voz na expressão artística de Jackson?


V - E, claro, tem os escândalos, as lendas, as excentricidades. Um mito perfeito, quase sobrehumano, um negro que virou branco, um Peter Pan. E tudo o mais que vocês já sabem.
Todavia, dessa parte eu não quero tratar, pois não foi isso que fez de Michael Jackson o artista da importância que ele foi, essas coisas foram o ônus que ele teve de carregar e que é inerente à todo o ícone pop. Exemplos de coisas do tipo não faltam: Jimi Hendrix, Janis Joplin, John Lennon, Jim Morrison, Elvis Presley, Ray Charles, dentre outros, que viveram e morreram de maneira visceral. O estrelato consome a maioria dos grandes artistas.
E também devemos levar em conta que a maioria dos críticos da vida da Jackson não eram seus fãs, não compravam ingresso pra show, não compravam discos. Logo, não ajudavam mesmo. Criticavam que o cara estava branqueando, que o cara isso, o cara aquilo. Agora vão continuar falando dele e, também, continuarão sem dar uma força na criação dos filhos dele e tampouco pagarão as dívidas deixadas. Mas falam, falam, falam... Ô gente faladeira, vão cuidar da vida de vocês e deixem os outros viverem a deles!
A verdade é que a justiça não condenou o cara das acusações a ele imputadas, as contas dele eram problemas dele e a vida íntima dele era problema dele. O que a gente viu foi uma postura artística sempre engajada com as coisas boas da vida, defendendo os menos favorecidos, a paz no mundo, combate a fome e a miséria, combate a degradação do planeta, pela tolerância racial e pelo amor entre as pessoas.
Dizem que estava decadente no final. Ora bolas, quem não experimenta a decadência nesse mundo? Só quem morre novo! E uma coisa é ser um leão decadente, outra coisa é ser um rato decadente. Qual dos dois você acha que Jackson era, levando-se em conta a sua obra artística?
(Ah,e uma decadência que vendeu mais de 800 mil ingressos antecipados pra 50 shows no O2 arena, em Londres.Uma decadência grandiosa essa , não é mesmo?)



VI - Foi-se o grande Michael Jackson, um cara legal, uma boa pessoa segundo o testemunho dos seus amigos e familiares, um grande artista de nosso tempo. Que Deus o receba em sua infinita paz.



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Como complemento a este ensaio, deixo a indicação de leitura dos seguintes textos:

Michael Jackson e o fim da indústria cultural
Marcos Flôres (Site IG) - Um ótimo texto de caráter acadêmico, que contextualiza muito bem o fenômeno Michael Jackson na indústria cultural.
www.souzaguerreiro.com/blog.php

Clichês sobre Michael Jackson
Régis Bonvicino (Site IG) - Não concordo com o ponto de vista desse texto, acho-o até agressivo em alguns pontos, mas levanta bons pontos de vista.
www.souzaguerreiro.com/blog.php

Michael Jackson, a Mídia e a Morte

Rosilane Rocha (colega do RL) - Um bom artigo, com pontos de vista com os quais me identifico.
www.recantodasletras.com.br/artigos/1671892
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 28/06/2009
Alterado em 03/07/2009


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