Quem inventou o termo GreNal foi o jornalista Ivo dos Santos Martins, do jornal Correio do Povo, em 1926, num guardanapo da Confeitaria Colombo, como bem sabemos. E sobre o primeiro clássico também conhecemos onde e quando foi e como terminou. Mas como foi aquele primeiro dia? Qual o percurso, a travessia dos primeiros gremistas e colorados - como diria Guimarães Rosa?
Isso nos informa o jornalista esportivo, cronista e escritor Edison "Rei do Furo" Pires no livro História do Grêmio, do qual foi o organizador: "O primeiro Grenal terminou em festa! Texto do Correio do Povo de 20.07.1909: Terminado o match, os assistentes invadiram o campo, em aclamações aos vencedores e aos vencidos. Em meio à vivas, foram eles levados para a sede dos Atiradores Alemães. Pouco depois das 06 da tarde, foi servido aos representantes das entidades coirmãs, imprensa, etc, profuso copo de cerveja, sendo, por essa ocasião, trocadas amistosas saudações. Em seguida realizou-se o baile oferecido aos vencedores e vencidos. Impossível seria descrever a franca e sincera cordialidade que reinou entre os membros do Grêmio FB e do Sport Clube, os quais, em meio da maior alegria, se entregaram às danças até as altas horas." Detalhe: o Internacional, como clube visitante, foi recebido pelo Grêmio, que arcou com todos os custos, como era o costume à época. Lindo, né?
Pois então, foi como uma disputa entre cavalheiros educada, social, civilizada e respeitosa que iniciou o clássico GreNal. E essa cordata rivalidade evoluiu? Bem capaz! Involuiu até, diria. Não há comparação possível entre o quadro atual com a sua gênese. Agora é só tiro, porrada e bomba, como cantou a Popozuda e o Choque BM tem de fazer coro seguidamente. Um exemplo? O histórico, famoso e fatídico primeiro GreNal da Libertadores, em março de 2020, às portas da pandemia: briga dentro e fora de campo, oito expulsões, uma fiasqueira total! Vergonhoso! E é a regra. Dá pra chamar isso, essa selvageria, de rivalidade? Mas claro que NÃO! Isso ofenderia a memória daqueles que foram até o Moinhos de Vento e entraram em campo no Fortim da Baixada em julho de 1909, em "franca e sincera cordialidade".
Particularmente, já enchi o saco, há muito, desse tipo de coisa. Dá-me nojo essa riXalidade. E não tem santos nem vítimas nisso, só pecadores e culpados, recalcitrantes. Ninguém escapa. Quando penso nessa situação, recordo da canção da Legião Urbana: "Quero me encontrar, mas não sei aonde estou Vem comigo procurar algum lugar mais calmo Longe dessa confusão E dessa gente que não se respeita Tenho quase certeza que eu não sou daqui". Entretanto, sou daqui, como sócio gremista que frequenta há décadas Olímpico e Arena pra torcer pro Imortal Tricolor.
Venho de uma família em que futebol nunca foi motivo de desrespeito e falta de educação, mas sim de convivência salutar entre gremistas e colorados, onde se brinca e não se briga. Tanto que, quando haviam torcidas mistas nos estádios, lá estávamos nós, civilizados e alegres, irmanados como todo bom cristão deveria proceder. A propósito, não esqueço o que disse o jornalista Milton Neves: "O futebol é a coisa mais importante dentre as menos importantes". Concordo. Vi-o recentemente no Um Assado Para, no canal do Duda Garbi, chorando emocionado pela perda da esposa e dizendo que tudo perdera o sentido para ele. Isso dá a dimensão do que é importante na vida, vindo de uma pessoa que enriqueceu com o futebol, que possui apartamentos nos EUA e Europa.
E, também a propósito, lembro do jornalista, historiador e escritor Juremir Machado da Silva escrever que futebol é negócio pra empresários e dirigentes, profissão para jornalistas, atletas e treinadores e paixão para torcedores. Sobre esses últimos tenho uma ressalva a fazer a Juremir: já vejo há muito que o futebol se tornou negócio, profissão e política para uma boa parte dos torcedores. Ah, e pros youtubers também, não podemos esquecer deles, hoje.
O GreNal está assim, o futebol está assim. E tudo isso parece um caminho sem volta. Parece? Concordam? Sinceramente, não sei. Apenas sinto inveja dos tempos idos, onde tudo terminava em confraternização entre pessoas civilizadas usufruindo de uma gostosa rivalidade esportiva. E, nesse sentido, faço gosto em participar pela segunda vez de espaços coletivos como esta coletânea mista da Escuna, onde podemos interagir literária e civilizadamente, como cidadãos educados que apreciam o futebol. É uma maneira prática de afirmar que um outro caminho é possível se a gente quiser.
PS - Não sei como estará até o lançamento desta crônica, mas a possibilidade de GreNal na série B e Juventude na A nunca esteve tão próxima. Se ocorrer, direi que vivi pra ver isso. Teríamos, assim, "dois gauchões" em 2027. Se for, tiremos o proveito de calçar as chuteiras da humildade.
Referencia bibliográfica:
PIRES, Edison. História do Grêmio Foot-Ball Pôrto-Alefrense - Passado e Presente de um Grande Clube. Porto Alegre, 1967, 315p.