João Adolfo Guerreiro
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Textos

Olhos D'água: a poesia no brutal

 

Um ex-colega de serviço, com muito talento para a fotografia, o Guedes, com seu olhar de rara sensibilidade conseguia fazer belas imagens em uma penitenciária (ver ao final do texto), enxergando um lado belo e tocante. Eu lhe disse, certa vez: - Cara, se tu fizesse uma exposição com tuas fotos, poderia se chamar "Há poesia até no inferno". Ele acabou fazendo, mas não a intitulando com a minha sugestão. Creio que poderia se dizer o mesmo sobre o livro de contos Olhos D'água, da escritora mineira Conceição Evaristo, debatido ontem pelo Clube do Livro de Charqueadas na Biblioteca Municipal Romeu Lombardi.

 

A questão racial caminha de mãos dadas com a desigualdade e a violência, extremas. Brutalidade. Bestialidade, até. Sofrimento atroz. Todos aparecem em cada página dos quinze contos que compõe o livro, mas escritos por um olhar imantado de poesia. São contos, não poemas ou prosa poética, mas a poesia está presente, com metáforas e tudo, como no ótimo primeiro texto, que nomeia a obra, onde a narradora se pergunta sobre qual seria a cor dos olhos da mãe, vindo a descobrir nos próprios.

 

Olhos D'água é pequeno, pouco mais de cem páginas, mas denso, praticamente um bloco monolítico de dor, desespero e morte. A jovem grávida e o companheiro fuzilados, a mãe linchada no ônibus após um assalto... Basta, fiquemos por aqui, deixemos os leitores adentrarem por si mesmos esse umbral terreno.

 

Como se aproximar, de fato, de tais barbaridades, vindas da "escrevivência" de Evaristo, formulação dela mesmo? É como ler sobre a escravidão, pensar nos navios negreiros e tentar se colocar na situação limite, inumana, das pessoas ali amontoadas, roubadas de sua terra-paraíso rumo ao inferno desconhecido. Como fazer isso? Quase impossível, dá apenas para imaginar e, em empatia, expressar o sentimento de "é o horror, o horror, o horror" de Conrad em O Coração das Trevas. Conceição nos leva a esse ponto com sua escrita, que encontra a poesia no brutal.

 

Utrahipermegasuper recomendo, mas advirto: é bastante forte, ainda que poético. A água pode inundar os olhos dos leitores e a alma ficar desconfortável. 

 

 

 

 

João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 16/07/2026
Alterado em 17/07/2026
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