O filme é uma versão sexual do livro.
Abaixo, explico a frase acima, comentando sobre o filme O morro dos ventos uivantes, versão recente da diretora Emerald Fennell para o icônico clássico da literatura mundial escrito por Emily Bronte, em cartaz nos cinemas.
Pressuponho leitores que tenham lido o livro, mas que não tenham assistido o filme. Logo, o texto será breve, apenas visando atiçar a curiosidade de quem conhece a obra para o filme.
Na verdade, esse elabora intensa e magnificamente a relação intrínseca que o sexo tem com a vida e a morte, trazendo algo que no livro é só tensão sexual, pois nele Cathy e Heathcliff não transam, enquanto na tela... O prazer sexual como fonte de vida e destruição, beco sem saída para indivíduos integrantes de determinada sociedade: a convenção versus o tesão. Dura realidade, abismo.
Mas tudo isso coisa de muito bom gosto no filme, sem putaria. A propósito, as melhores cenas julgo serem: a inicial (prestem muita atenção nela, desde os sussurros com a tela escura), que simboliza tudo o que o filme abordará de forma crua, mas inteligente; e a cena de Cathy espiando a transa dos empregados, cheia de significados sociais que poderão ser sacados logo adiante na história, quando Cathy visita sua ex-casa e fala com o homem sobre a empregada.
A versão de Fennell é, senti na poltrona, meio longa para esse tipo de enredo erótico. Penso que esticou demais a parte das transas - pelo menos a mim enfadou. É bem diferente do original de Bronte: básica, sintética e distorcida. Entretanto, as distorções fazem justamente parte da versão que a diretora quis fazer, principalmente a ótima cena inicial - que é muito forte e impactante, advirto os sensíveis e incautos. Quais são as sínteses e distorções? Ah, se eu disser aqui entrego o filme pra vocês que não o assistiram. Mas reafirmo: não é nada superficial ou gratuito na direção de Fannell, é coisa de gente grande.
O livro é visceral e o filme é genital. Todavia, tudo isso é parte de uma mesma totalidade biológica, não é mesmo? Um, frio e uivos; outro, calor e gemidos: ao final, ambos convergem pro mesmo desespero e tragédia.
Mesmo apresentando muita diferença em relação ao livro, o filme vale o ingresso pra quem leu O morro dos ventos uivantes e gostou. Calientissimo, mas não apelativo. Os morros uivam, sussurram, suspiram e gemem ante tanto calor sexual humano, transbordando em vida e morte. Deixo, abaixo, o trailer do filme.
Uma boa semana curta pra vocês, que começa nesta Quarta-feira de Cinzas, após o feriado de Carnaval. Cuidem-se, vacinem-se, leiam, vão ao cinema, vivam e fiquem com Deus.
O morro dos ventos uivantes - filme, trailer YouTube
PS em 20/02/2026 - Bom dia. Sabe, Max [Belzareno, romancista charqueadense], depois da conversa que tivemos aqui [grupo WhatsApp do Clude do Livro de Charqueadas] fui furungar no YouTube "análises críticas" do filme. Deus do Céu, ainda bem que não as vi antes de assistir e fui incólume para o cinema, tábula rasa só com a leitura de Bronte nela gravada e, assim, pude apreciar a versão - não adaptação - de Emerald Fennell para o meu amado clássico. O morro tá pra mim como o Grande Sertão de Rosa: puta que pariu, mas bah! E saquei e curti a versão, sobre a qual já escrevi e não repetirei. E fico olhando essa infinidade - Deus, devem ser milhares - de YouTubers fan boys e fan girls de O morro livro irados com O morro filme de Fennell. E todos com a mesma premissa equivocada: comparando a versão com o original. Mas, gente, não é uma adaptação, mas sim uma versão! Eles tem aversão à versão, pois a julgam como se fosse uma tentativa de adaptação. Pois já vi TODAS as adaptações cinematográficas e digo: nenhuma delas chega a 50% do que o livro impacta no leitor. O morro é uma história pra livro, pra ser lida. Ponto. Assim como o Grande Sertão. E digo que a adaptação pra telona que mais se aproxima do clima visceral, fantasmagórico e sombrio do livro é a de 1939, em P&B. E só uma delas trouxe algo que é chave para a importante diferenciação de classes que o livro aborda: um Heathcliff de pele escura, fato destacado por Bronte. Mas voltemos aos You Tubers. A raiva que consome a capacidade analítica racional é visível nos rostos, falas e tom de voz desses. Parecem esses You Tubers de futebol, que só criticam porque, como ensinou Felipe Neto, o ódio traz mais engajamento e likes. Mas os do futebol são velhos safados e FDPs querendo grana, os literários são sinceramente magoados. Comparação, comparação e mais comparação. Dele comparação! Gente, é uma versão, não comparem, isso só mostra a mágoa e raiva para com o roteiro de Emerald por ela ter "maculado" a "sagrada escritura" do texto de Bronte. Fans boys, fans girls. Analisem a versão por ela mesma, pois é um novo texto que parte de outro e, inclusive, numa mídia diferente da original. Implicam a ótima cena inicial, chave na versão, acusando-a de gratuita! Com a trilha perfeita, que sublinha bem os climas psicológicos e emocionais do filme. Com o figurino! Por Deus, não sacaram então o motivo da onipresença do vermelho nos cenários e figurinos? E porque o espalhafato dos mesmos? Mas bah. Era isso. Poderia falar mais. Fico por aqui. Tu é romancista, estou interessado na tua impressão pós filme. Abraço.