Estava sentado no "trono" do WC folheando Maquiavel. O Príncipe. Oras, o Nicolau não escreveu para os reis? Pois então.
Terminou o que estava fazendo, deu a descarga, fez a higiene anal, colocou o papel no cesto e lavou as mãos. Saiu do banheiro e imergiu na escuridão da biblioteca. "Ué, já foram embora?" Tateou mentalmente pelos corredores até sua visão se adaptar à pouca luminosidade do ambiente. "Esqueceram de mim!". Sim, esqueceram dele. Foram embora, deixando-o trancado.
Chegou até a porta de vidro escuro. Ninguém na frente da biblioteca. "E agora?" Notou que uma moça passava pela rua em frente, bateu e chamou pelo pequeno vão entre os vidros do marco. A mulher ouviu, olhou para a porta da biblioteca e viu aquela sombra alta e sem cabelos dentro do prédio. Assustou-se e correu. "Droga". A chuva apertou lá fora. Raios caíam. O vento zunia. O pior é que, na corrida, esquecera em casa o celular ao vir com atraso.
Acendeu as luzes e sentou no sofá. "Alguém virá" - conformou-se. A mulher sabia que viera na biblioteca, logo ficaria preocupada com a demora. Pegou o livro do Maquiavel pra passar o tempo. Sobrara café quente na térmica. Pouco tempo depois se encheu de ler O Príncipe. Andou até a estante de autores locais pra ver algo mais em conta. Percebeu a capa preta com letras vermelhas: Assassinato na Biblioteca Vera Gauss. "De quem é isso?" Procurou e achou: João Adolfo Guerreiro. Interessou-se e pegou pra ler no sofá.
Conforme adentrava na leitura do breve conto impresso, sentiu fome. "Será que tem algo na geladeira?" Foi lá e achou uvas num saco plástico transparente. Voltou para o sofá. Ao chegar na parte do texto em que a tal "Cousa" observa os vadios que furtam a biblioteca pela madrugada e ainda comem o que há na geladeira das funcionárias, achou graça.
Indo mais adiante na leitura, entrou numas que estava sendo observado ali dentro. "Ah, influência desta bosta de livro". Largou-o. Achou que estava demorando pra aparecer alguém, até que percebeu entrarem pela porta da frente fortes luzes em movimento. "O giroflex da brigada" - concluiu. Levantou-se e foi até lá, dando de cara com os brigadianos.
- O que tu tá fazendo aí dentro, cara?
- Esqueceram de mim aqui. Tava numa reunião do Clube do Livro, fui no banheiro e o pessoal foi embora e me deixou aqui.
- É mesmo? História meio estranha essa...
- É verdade, juro. Se estivesse roubando livros não tinha vindo aqui falar com vocês, né?
- É. Uma mulher nos ligou dizendo que havia alguém na biblioteca do Parcão. Qual o teu nome?
- Antônio. Eu vi a guria, chamei ela pra pedir ajuda, mas ela se assustou.
- O senhor mora onde?
- Perto do Bom Gosto.
- Bom, não vamos arrombar a porta pra te tirar daí. O senhor consegue sair pela janela?
- Não consigo, sou muito grande, estou com sobrepeso e com o quadril machucado.
- Então teremos de achar a funcionária responsável pra ela vir aqui com a chave. Sabe onde ela mora?
- Sei.
Após uma meia-hora, depois de abrirem a porta e uma constrangida funcionária confirmar a história de Antônio, todos foram embora. Na escuridão silente que voltou a tomar a Biblioteca Vera Gauss, uma voz inaudível aos ouvidos humanos falou pra si mesma: "Ainda bem que se foram. Humanos insuportáveis. Ah, a paz".
Um bom final de semana pra todos. Cuidem-se, vacinem-se, vivam e fiquem com Deus.