Hoje comemoramos os 120 anos do nascimento do escritor Erico veríssimo. Às 19 horas, na Biblioteca Municipal Vera Gauss, o Clube do Livro de Charqueadas realizará um debate sobre Caminhos Cruzados, romance publicado pelo autor em 1935. Para marcar a data aqui neste espaço, recebemos a colaboração de Joana Rocha Guerreiro Argenton (foto acima), leitora voraz da obra do Verissimo pai, com um texto onde aborda sua experiência pessoal com os livros do autor. Desfrutem!
VERISSIMO NA CABEÇA
Por Joana Guerreiro Argenton
Até as minhas lembranças mais infantis são decoradas por livros. Primeiro, porque minha casa era decorada por eles; segundo - e, talvez, consequentemente -, porque desde que eu desenvolvi essa capacidade, não passava o dia sem enfiar o nariz em algum. Daí o meu amor por bibliotecas: elas são cheias de algo que adoro e têm cara de lar. Foi numa delas que conheci o Erico. O impacto da obra dele na minha vida foi tão grande e afetou tão profundamente a minha visão de mundo que falo dele assim, como se o conhecesse, ainda que este ano marque o seu centésimo vigésimo aniversário e eu sequer tenha chegado aos trinta.
Numa manhã sem muito significado, a professora de história da sexta série leu um excerto de Incidente em Antares, último romance de Erico. A bibliotecária da escola disse que esse ela não tinha, “mas tem toda essa prateleira aí de Erico, se tu quiseres.” Levei o primeiro volume de O Continente e ela assinou a ficha de empréstimo sorrindo. Em breve eu descobriria o porquê.
Já se vão dezesseis anos dessa descoberta e eu lembro até da textura das páginas e do cheiro dos livros daquela coleção (os mais modernosos que me perdoem, mas não há comodidade de Kindle que se compare a essa experiência). O Continente I é o primeiro dos sete volumes da obra O Tempo e o Vento, certamente a mais conhecida, citada e adaptada para outras mídias entre as obras de Erico Verissimo. Ana Terra, Rodrigo Cambará e seus descendentes são tão conhecidos que chegam a ser folclóricos; não se trata tão somente de regionalismo, é regionalismo da minha terra. A Bahia de Jorge Amado é fascinante, mas o Rio Grande de Erico é o chão em que piso. É como ler a história contada pelas pedras das cidades antigas e pelos ossos dos que já se foram.
A escrita de Erico tem uma simplicidade natural e profunda que a arrogância é incapaz de imitar. Suas obras falam pouco de grandes acontecimentos e muito sobre o cotidiano e os conflitos internos de personagens comuns, como faz em Caminhos Cruzados, onde se vale da técnica do contraponto para cortar uma fatia da vida como ela era na Porto Alegre da década de 1930. Com o realismo fantástico de Incidente em Antares, ousou satirizar o autoritarismo em tempos de ditadura militar, simples o suficiente para que fosse compreendido, sofisticado o suficiente para que não fosse censurado.
Li e reli várias das obras de Erico e não cansa de me surpreender a facilidade com que eu, uma mulher do século XXI, consigo enxergar meus próprios dilemas descritos na vida de uma personagem que tem idade para ser, no mínimo, minha bisavó. Um pouco da razão disso está na magia do autor para falar do ordinário e outro pouco é o que disse Belchior quando escreveu “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Tudo mudou, mas somos humanos e, em suma, foi disso que Erico Verissimo se ocupou na sua obra: falar sobre como vivemos e o que somos.
