João Adolfo Guerreiro
Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.
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Textos

Um conto quase picante de Natal: Noella

 

Deus estava dando uma circulada pelo Círculo Polar Ártico, usufruindo do silêncio de sua criação a fim de pensar em algo para dar um up no Natal, essa data que aquelas suas criaturas conformes a sua imagem e semelhança recém haviam inventado para comemorar o nascimento de seu Filho. Era 1º de dezembro de 350.

 

Pensou num bispo cristão lá de Patara, uma cidade pertencente ao Império Romano, que realizava um trabalho caridoso muito bom entre os necessitados, principalmente crianças durante este gélido período, dando-lhes presentes. Gostava dele, há anos o vinha observando, era a pessoa certa para um projeto que ele tinha em mente, usando trenó e renas. Achou esse lance de presentes legal e pensou que o bispo tinha futuro, um longo futuro, aliás. O Onipotente já havia pensado em tudo. Aproveitou a noite, quando o bispo Nicolau estava em altas orações em seu quarto, sozinho, e resolveu aparecer momentaneamente pra ele, materializando-se.

 

- Oi, Nicolau. Chamou-me, eis-me aqui: o seu Senhor.

- Deus do Céu! - espantou-se o religioso ante tamanha aparição.

- Sim, Eu mesmo, meu filho. Calma, não vá ter um infarto neste momento.

- És mesmo o Senhor, Senhor?

- Sim, já o disse. Duvidas?

- Como eu posso saber?

- Você está sem cueca, nunca fez sexo, urinou-se ao me ver e estava agora mesmo me agradecendo por ter curado a menina pobre que estava engasgada.

- Onisciente, é Você!

- Sim. E tenho algo pra ti, Nicolau. Tu é o cara certo pra tocar um projeto que tenho em mente.

- Ó, Altíssimo, sou seu filho e servo...

- Tá, Nicolau, pare de salamaleques e bajulações. Ora, "Altíssimo". Lá tu sabes o meu tamanho? O lance é o seguinte: tu vais poder ajudar muita gente, mas terás de continuar celibatário pelo milênios que virão. Por outro lado, serás imortal.

- Tô dentro, Senhor. Qual será a parada?

- Muito bom, gostei, caro bispo Nicolau. Se prepare pra morrer daqui cinco dias para este mundo e virar santo, pra depois ir morar na Lapônia e assumir um cargo que criei pra ti: o de Papai Noel.

- Papai Noel?

- Sim, algo tipo Pai do Natal. Tu vai voar num trenó puxado por renas e distribuir presentes por todo o planeta na véspera do Natal.

- Tá bom, Senhor. Que seja feita a vossa vontade na terra e no céu.

- Bom, bispo Nicolau, gosto de gente como tu, que reconhece uma boa oportunidade quando ela aparece.

 

E, mais ou menos assim, foi que o futuro São Nicolau virou o Papai Noel e teve início sua lenda.

 

Passaram-se os anos, os séculos e os milênios e Nicolau, agora definitivamente Papai Noel, ficava o ano inteiro na Lapônia preparando o Natal para o inverno, no dia 25 de Dezembro, ajudando a colocar a edificante e benfazeja mensagem de Cristo no duro coração dos humanos, através do culto ao nascimento do Menino Jesus. Isso até janeiro de 1849, quando um vazio repentino imantou seu coração, uma falta, uma solidão. Foi para seu quarto na Casa do Papai Noel e começou a orar fortemente pra Deus.

 

- Boa noite, meu caríssimo Papai Noel. O que é?

- Tu sabes, ó Onisciente.

- Sim, sei, claro que sei. É que gosto de oferecer uma interação em mesmo nível pra ti. Nicolau, vou ser direto contigo: Tu quer uma mulher, né?

- Sim, Senhor.

- Se até Adão, que nunca tinha visto, me pediu uma, imagina tu, que já conhece.

- Não, Senhor! Nunca conheci! Tu o sabes, és o Onisciente.

- Falei conhecer no sentido mundano, Nicolau, não no bíblico.

- Ah tá, Senhor.

- E por falar em bíblia, tu viu o problemão que deu com o Adão, né, Nicolau?

- Sim, eu li, Senhor. Em grego.

- Então...

- Mas comigo não dará problema, Senhor. Só quero uma companheira.

- O Adão me disse a mesma coisa: "Só quero uma companheira". Daí eu criei a Eva e ele foi lá e... Disso vieram Caim e Abel e o Caim matou o Abel. Problemão familiar!

- Comigo não acontecerá, Senhor. Juro por...!

- Olha o respeito!

- Desculpe, Senhor.

- Nicolau, tu nunca teve mulher, bispo Nicolau. Passou esses milênios sem e agora inventou de querer uma?

- Não sabias que tal aconteceria, ó Onisciente?

- Parece com essa bajulação de "ó Onisciente". Não me provoques, Nicolau. É que criei o livre arbítrio e vocês podem dar vazão a seus sentimentos e ideias. Logo, isso é coisa tua, não minha. Sabia o que se passava em teu coração, mas não se daria vazão ou não, pois isso é escolha tua.

- Senhor, é a pulsão do meu livre arbítrio. Tenho refletido muito nisso através dos séculos...

- Ô vida, nada como a imortalidade pra se ter tempo de sobra pra ficar pensando nas coisas. Tá ok, Nicolau, vou de liberar essa, assim como fiz com o Adão. Só que vai ser no mesmo esquema: sem sexo, viu? Filhos pra ti são somente os duendes, as renas e as crianças do mundo. No lance do amai-vos e multiplicai-vos, tu ficarás apenas no amai-vos, sacou?

- Sim, Senhor, saquei. Assim será.

- Quero ver. Esse lance de sexo com meus eleitos já me deu muita incomodação. Não foi só o Adão. Abrahão, Davi... 

- Sei, Senhor. Li. Tudo. Em grego.

- E digo mais: esse não é um fardo que estou te dando, é tu que tá pedindo, logo, não poderás reclamar de nada. Não esqueças: tu que estás trazendo a Mamãe Noel pra tua vida.

- Sim, Senhor.

- E ela vai te tentar, viu?

- Como assim, Senhor. Tô pedindo só uma companheira.

- Sem essa, Nicolau, o pacote será completo: mulher é mulher, cheia de virtudes e de desejos, bem assim como tu és. Humana, espírito encarnado. E a Mamãe Noel será sexy e vai te tentar, pode crer que vai. E tu vai tentar ela também, podes crer.

- Vai? Vou?

- Vão, ah, vão, mas claro que vão. Como tu acha que o Adão caiu lá do Paraíso? No verão da Lapônia ela vai ficar mais a vontade em frente a lareira e tu lá, sentado, olhando. Possivelmente terás uma excitação, Nicolau, e olharás pra Mamãe Noel de uma forma diferente. Vocês aí, juntos, pelos séculos, cercados de duendes, renas e gelo anos inteiros...O que tu acha que acontecerá? O desejo tomará teu coração, tua mente e teu corpo e te tentará...

- Deus me livre e guarde!

- Sem essa de Deus me livre, Nicolau. É tudo contigo, tu é que pediu, te vira. E tem mais: no inverno aí das proximidades do Polo Norte ela vai sentir o frio do corpo e o da alma e, como fim de obter o calor do desejo, te chamará: "Noooooeeeellll, veeeem cáááá". Tu até pode ir, Nicolau, até digo que com certeza tu irás, com toda a alegria desta Lapônia, irás, mas se fizer aquilo, saibas bem, já era pra ti, babaus Papai Noel. E aviso: peguei leve com o Adão porque ele não sabia nada sobre nada, logo, só chutei ele e a Eva pelados do Paraíso. Já pra ti o penalty vai ser mais pesado, porque já existe a bíblia e tu já a leste. Toda. Em grego!

- Sim, Senhor. Aceito tudo isso.

- Aceita? Mas bah, Nicolau, tu tá muito a fim mesmo da "companheira", estou vendo.

- Sim, Senhor.

- Então tá, "Papai Noel". Até dezembro vou fazer essa mão pra ti. Tu é que sabe, é o usufruto do teu livre arbítrio. Aguardes.

- Obrigado, Senhor.

 

Assim, Deus inspirou o missionário cristão, escritor, editor e dramaturgo James Rees a escrever naquele mesmo ano o conto Uma Lenda de Natal, onde apareceu pela primeira vez a Mamãe Noel. Dessa forma, ela passou a fazer parte da vida do Papai Noel, lá na fria Lapônia. Nicolau a chama de Noella. Em 1889 a poetisa  Katharine Lee Bates, igualmente divinamente inspirada, popularizou de vez Noella no imaginário popular via o conto Mamãe Noel num Passeio de Trenó.

 

E quem foi a pessoa escolhida por Deus pra ser a Mamãe Noel? Ah, isso só Ele, o Onisciente, sabe...

 

Um bom final de semana e um inspirado segundo domingo do Advento para todos. Cuidem-se, vacinem-se, vivam e fiquem com Deus.

João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 05/12/2025
Alterado em 05/12/2025
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