Podemos viver no mundo, nos acharmos cosmopolitas, mas, dependendo do nosso esquema mental interno e/ou ideológico, podemos estar sempre no mesmo beco. E o do veterano roqueiro gaúcho Júlio Reny é tipo o Beco de Três Ruas (1), que, no seu caso, possuem, respectivamente, o nome da tríade do som criado por Berry, L Richard e Elvis: Sexo, Drogas e Rock'n Roll. Reny viveu, vive e morrerá por essas ruas, sendo sempre um rocker, afirmou peremptoriamente no filme Amor e Morte em Júlio Reny.
Vi o filme no domingo, está em cartaz no Shopping Bourbon Country, em Porto Alegre, às 13h30min. Se tu curtiu o rock gaúcho dos 1980, megaultrasuperhiper recomendo que assista essa cinebiografia de Reny. Ah, essa crônica, daqui pra frente, conterá spoilers sobre o filme, leia sabendo.
Reny, nele, chora todas as pitangas embebidas em muita cachaça, dentre elas, a de que atualmente é um roqueiro maldito que toca em barzinhos da Região Metropolitana para plateias de até seis pessoas, por 50 a 100 pilas a noite e que sobrevive de uma aposentadoria mínima. A maldição é forte, mas bah, porque eu era uma das seis pessoas que pagaram 40 pilas pra estar na plateia assistindo Amor e Morte, ou seja, maldito no palco e no cinema. Diz que um vizinho, que já morreu, o teria amaldiçoado em 1985, por achar que ele tinha envenenado seus cachorros, o que nega veementemente. A maldição, inclusive, acredita Reny, o teria impedido de estourar nacionalmente naquele ano. Veja o filme, ele conta tudo isso em detalhes.
O interessante é que, ouvindo-o em Amor e Morte em Júlio Reny, a gente percebe que o discurso mágico acerca de suas desventuras não tem nada a ver, pois são, sim, decorrência de suas escolhas pelo beco das ruas do Sexo, Drogas e Rock'n Roll. Não que eu esteja aqui julgando o rocker, longe disso: cada um vive a vida como quer. E quem sou eu na fila do show pra dar pitaco sobre a estrada do Júlio Reny, né? Todavia, reflito: "o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria", como escreveu o poeta Willian Blake em Os Provérbios do Inferno? Jim Morrison percorreu esse caminho, como Reny percorre. Veja o filme e encontre suas próprias respostas pra ti.
O bom da cinebiografia é que Reny, seguindo uma tradição já consolidada pelas autobiografias de roqueiros famosos como Clapton, N Young, K Richards, Duff e Slash, conta tudo, suas maiores glórias e derrotas, bondades e canalhices, sem esconder nada, pura sinceridade e sincericídio em níveis extremos, assim como foi sua vida por essas ruas. Por exemplo: o cara chegou a ter três mulheres ao mesmo tempo. Todas sabiam da situação. Levava uma por vez a cada show, até que a barra pesou demais e ele resolveu casar com a mais nova, de 16 anos. Assim, passou a morar com a esposa de 16 e a filha de dez (era viúvo). Acredito, inclusive, que uma dessas esposas era daqui de Charqueadas, vide a canção Telefone em Charqueadas, do CD Júlio Reny & Os Irish Boys - Bola 8 (2010). A canção não é clara sobre isso, mas Júlio Reny costuma ser evasivo em suas letras autobiográficas: sabiam que a Lola do sucesso Não Chores Lola é ele? Sim, é ele chorando o fim de um dos seus casamentos. E a letra de Amor e Morte é de sua primeira esposa, sobre ele.
Estava na cafeteria Degusty ontem e perguntei pro Juliano e pro Cássio Quines se eles sabiam dessa história da guria de Charqueadas da canção, mas não. Nem o Marcelo Noronha, que escreve pro Portal de Notícias, sabia. E olha que o Marcelo é conhecido do cara! Num show do Júlio Reny na boate Kalahari, aqui em Charqueadas, em que ambos estavam bêbados, Marcelo subiu no palco e cantaram juntos Amada Amante, do Roberto Carlos. Depois disso, encontravam-se, falavam-se seguido, mas não a ponto do Marcelo saber a identidade da mina. Noronha disse que assistirá o filme.
Não contei nesta crônica nem 10% do que o roqueiro revela sobre sua vida no Beco de Três Ruas do Rock em Amor e Morte em Júlio Reny e nem tudo que escrevi lá esta. Assistam. Recomendo.
(1) - O Beco de Três Ruas é o nome de um espetáculo teatral que assisti no domingo a noite no Teatro Renascença, também na Capital. O texto é do Yannikson, daqui de Charqueadas, e me fez refletir sobre a cinebiografia do rocker um pouco a partir do que a peça abordava.
