Na penumbra do cômodo, útero repleto de livros, a chuva bate no vidro da janela e na minha alma, acariciando-as. Eis a anunciada chuva, essa mesmo que disseram que hoje viria e que realmente veio. O vento balança as árvores e eu estático, na poltrona, escrevendo enquanto o vapor do café sobe e aromatiza o cômodo.
Estou bem acomodado, protegido da chuva. Nem fui buscar o jornal, preferi ficar aqui, na comodidade da biblioteca. É primavera lá fora e aqui dentro, na minha alma. Tempo bom, calorão ausente. Os cães e os gatos dormem. Os humanos, os caninos e os felinos, todos bem acomodados nesta sexta-feira de chuva, nesta casa. Só a luz tênue dos raios solares oriundos do céu chumbo encharcado adentram o cômodo, tornando-o de uma paz penumbrosa. É um privilégio conquistar a zona de conforto e dela usufruir.
Não ficamos no útero pra sempre e tampouco ficaremos por aqui eternamente, mas enquanto estivermos, que seja cômodo. A guerra não é uma aventura, é uma doença, escreveu Exupéry, e as zonas de guerra, todas elas, são tortuosas e torturantes. Zonas neutras e de conforto, essas, sim, são venturosas. Os que defendem sairmos da zona de conforto, geralmente, hipocritamente vivem numa e, se não, são tolos a conduzirem cegos, eis que a vida não tem mistério para bípedes, quadrúpedes e alados. A batalha da vida é venturosa quando lutamos pra conquistar nossa zona de conforto. O nosso lugar no mundo. Cômodo.
A paz invadiu o meu coração venturoso, trazendo comodidade. Vim, vi, venci, como Júlio César. O homem é ele e sua circunstância: o cômodo. Acomodação. Acomodado. A vida é bela e a paz é uma aventura.
Um bom findi pra todos. Cuidem-se, vacinem-se, vivam e fiquem com Deus.