João Adolfo Guerreiro
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Textos

A menina, o morro e a chuva

 

A menina nasceu num belo dia de chuva de primavera, no Dia do Funcionário Público, oriunda de uma família de sorridentes funcionários públicos. O hospital era divinamente situado na metrópole, ao lado de convidativos morros cheios de mato e ela era a árvore florida no quintal de sua família.

 

Nem duas horas de vida e já amada e saudada em rede social a menina, que levava, no nome composto, os de suas bisavó e tataravó, além dos sobrenomes familiares. Pela janela de vidro da cafeteria do hospital, os homens sonolentos que bebiam café observavam a chuva hidratar as árvores do morro; a menina e mãe, no leito do quarto, observavam a água que caía do céu abençoar o verde que em direção a Deus subia. Pontos de vista, até pra menina, que não abre os olhos, mas que saberá disso no futuro.

 

 

Hora de ir pra casa e deixar os pais lambendo a silenciosa cria e trocando suas primeiras fraldas, embalados pelo choro do menino Pedro, no leito ao lado. Boa temperatura. Na rodoviária ele observava o prédio conhecido, enquanto uma goteira pingava próxima ao box 14. Desde 1977 recordava de vir até ali. Por que 1977? Nem lembrava, já fazia tanto tempo que a memória só guardara a importância do ano, mas não o motivo.

 

Um jovem lhe disse que os prédios da metrópole, tão antigos e maltratados e pichados, lembravam os de uma distopia. Lembrou que, desde aquele 1977 em que os fuscas laranja com taxímetro e sem o banco dianteiro do carona o levavam, junto com a mãe e a irmã, até a casa da tia-avó e madrinha, a cidade já era assim. O tempo passou e ela ficou mais assim ainda.

 

Todavia, era a "cidade dos meus versos, o sonho dos meus amigos", como cantou Bebeto. Aquelas ruas, lugares e prédios faziam parte íntima de sua biografia, ilustravam sua história. Aquela goteira no box 14 o fez pensar nessas coisas. A goteira no imponente telhado de concreto era um fato a demonstrar a fragilidade e transitoriedade das coisas humanas: "Água  mole em pedra dura"... A menina desabrochando para a vida, os pais em suas décadas iniciais ele já nas suas finais, cheio de memórias e de sentidas ausências, como a da madrinha e a da mãe. A vida insiste, renovando-se: processo continuo, dialético.

 

Estava uma bela noite de chuva de primavera. Ótima noite pra, depois de tomar o último café no Passarinho laranja como os fuscas do passado, embarcar no familiar ônibus, poltrona de janela, e ir pra casa, com o feliz coração nascente de meninas, chuvas, morros e lembranças...

 

João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 30/10/2025
Alterado em 30/10/2025
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