João Adolfo Guerreiro
Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.
Capa Meu Diário Textos Áudios Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links
Textos

A gata preta no XI Sarau: onde estamos?

 

A gente nunca sabe onde realmente uma pessoa está, mesmo que esteja sentada do nosso lado. A mente viaja e interage em espaços diferenciados.

 

Ontem estivemos, numa atividade do XI Sarau Literário de Charqueadas, em Guaíba City, mais precisamente na escola Osmar Hoff Pacheco. Já escreverei sobre isso aqui. Antes, quero dizer que hoje o IX Sarau (a PROGRAMAÇÃO COMPLETA neste link) continua com a seguinte agenda:

- 09h15min, na Biblioteca Municipal Vera Gauss, oficina de Escrita Criativa com Amanda de Paula;

- 14h, no Assentamento 30 de Maio, Literatura no Campo: roda de conversa entre a Associação de Literatura de Charqueadas e a Associação Feminina Mãos que Tecem, com apoio da Emater e coordenação da extensionista rural social Letícia de Lima.

- 19h, Manoel Henrique Paulo e Lílian Mattos, na Biblioteca Vera Gauss, falarão sobre o trabalho registros artísticos: os ciclos econômicos de Charqueadas;

- 20h30min, também na Vera Gauss, Elizabeth Kappel abordará o tema Curadoria Literária.

 

Voltando para GUAÍBA CITY, digo que estivemos perdidos no início, cheguei a achar que a coisa não seria boa. Fomos em dois carros: um particular; outro do vice Dé Sippel. O motorista foi o simpático e solícito Daniel Roberto. Ligou a maquininha aquela do celular, que dá o trajeto. Seguimos. Dali um tempo estranhei: "Não lembro de andarmos tanto pra chegar em Guaíba City". Juliane: "Aqui no meu diz que ainda falta 13 minutos". Inês e Rosilane quietas. Insisti: "Não lembro...". Roberto parou e constatou que a maquininha nos levava para a rua Osmar Hoff Pacheco, em Guaíba, e não para a escola Osmar Hoff Pacheco, em Guaíba City. Como eu sabia? Tive, no bom passado já distante, uma namorada que dava aula na escola e mais ou menos tinha na memória a distância a percorrer na BR 290 até chegar na entrada de Guaíba City.

 

Voltamos e chegamos na Osmar Hoff, enquanto o Mendes e o Henrique, no veículo particular, estavam perdidos. A escola não era mais a azul de madeira de minha recordação, mas sim um prédio de alvenaria. Quem primeiro nos recebeu no pátio foi a gata preta da foto acima, grávida. Veio muito simpática, miando, e nos acompanhou por dentro do prédio e durante a atividade, a linda. Encontramos no refeitório nos esperanto a extensionista da Emater Letícia Lima e as mulheres da associação dali. Um de nós pisou numa das patas da gata, que veementemente protestou pela desfeita, mas não a ponto de levar para o lado pessoal o descuido.

 

Deitamos falação literária sobre os ouvidos das mulheres por uns 45 minutos ou mais, depois do Mendes e do Henrique, finalmente, encontrarem a escola. A Inês me deu a palavra. Lembro de iniciar os trabalhos, como patrono do XI Sarau, brevemente apresentando-me, falando do fato do Sarau existir há vinte anos e ser a primeira vez que ali chegava, de lembrar dos relatos da estudante de veterinária Rafaela Marek sobre os dantescos efeitos da enchente de maio 2024 ali e da minha namorada que dava aula na escola. Na verdade, em minha cabeça, estava a saia justa dela a emoldurar suas coxas grossas, mas isso, obviamente, não falei. Era azul ou vermelha a saia? Puxa, esqueci. Já eram mais de 15 horas e passamos a palavra para as mulheres. Letícia assumiu a coordenação dessa parte e habilmente as fez falar, e elas falaram. Histórias de luta, sofrimento e de amor. Interessou-me demais isso, foi a melhor parte da atividade.

 

De todas, a fala que mais me tocou foi a de uma senhora de tez morena e dentes grandes e muito bonitos, muito bem feitos. Isabel é o seu nome. Disse que foi criada por uma tia até os 16 anos e, como a Cinderela, sofreu muita exploração e surras. Só foi aprender a ler aos 32 anos. É de uma igreja, queria ler a bíblia. Por que fiquei tocado? Porque vi nela o meu falecido pai contando pra mim e pra minha irmã a sua história. Ele foi, dos 2 aos 12 anos, criado por um casal de tios que não tinham filhos. Pra resumir: foi um Cinderelo, até que fugiu pra casa dos pais e foi aquele alvoroço na família. Um tio chamado Noca, quando soube do que ocorria, foi na casa no outro tio e descascou "Mas tu, fulano, logo tu? O guri é sangue do teu sangue!" Fico emocionado até agora, escrevendo sobre isso. Estava ali, em Guaíba City, e também em Mostardas, há quase noventa anos atrás, para um tempo que nem mesmo presenciei. Que coisa, né?

 

Letícia falou sobre as histórias de vida das mulheres e da vontade de fazer um livro delas. Dissemos, a partir da nossa experiência com o Conteiros de Charqueadas, que elas deveriam escrever e tentar a publicação, que era algo viável de se fazer, inclusive com as leis de incentivo cultural que existem e podem ser acessadas via projetos submetidos aos editais. Fomos embora, a Juliane me fotografou sentado atrás de um lindo canteiro de pneus e flores na entrada da escola. A gata preta nos levou até o portão. Da estrada, em Guaíba city, dá pra ver Porto Alegre muito bem. Explicado porque o Jacuí e o Guaíba chegaram até ali em maio de 2024 e arrasaram a vila onde residem 300 famílias, depois deixando, ao recuarem, quase uma centena de animais de grande porte mortos, suas carcaças apodrecendo e cheirando mal. Mas a vida insiste e resiste: as mulheres estavam ali, plantando, criando filhos e netos; a gata preta estava grávida. Vida que se renova. Ah, nos deram o fruto de seu trabalho, sacolas cheias de produtos da terra; deixamos uma ecobag cheia de livros para elas. Nos deram o fruto de suas mãos, demos o das nossas: alimento para o corpo, alimento para a alma. Nos completamos.

 

À noite, foi a ABERTURA do XI Sarau. Falei novamente sobre os 20 anos do Sarau, de ter participado de todo esse processo desde a Conferência Municipal de Cultura de junho de 2005, junto com o Rodrigo, a Sandra, o Carlos e a Rosilane, das dificuldades e dos bons momentos e do fato do Sarau Literário de Charqueadas ser uma ideia tão boa que renasceu em 2022 após um hiato de 11 anos - muito fruto do comprometimento, do trabalho e da liderança da bibliotecária Carina Pahim - e mais algumas coisas sobre essa décima primeira edição do evento.

 

Todavia, embora não tenha dito nada sobre, minha mente estava alguns anos atrás, mais precisamente na Banca do Povo, conversando com a querida proprietária Loivaci Lima e com o Larry, do Sindimineiros. Comprávamos revistas fiado dela, pagávamos no final do mês. Nossa revista em comum era a Rolling Stone, sobre rock. Ainda tenho em minha biblioteca revistas do Larry e da banca da dona Loivaci, dados pelas respectivas famílias pós eles falecerem. O Larry, no dia que ele faleceu, eu estava no Sala Precisa (atual Caldeirão Furado), um bar temático sobre Harry Potter na cidade baixa, em Porto Alegre. Era 31 de julho de 2019, "aniversário" do "Bruxinho". Nunca esqueço. Jamais esquecerei! Estava, coincidência, com a camiseta do Sampaio Corrêa (a mesma das fotos abaixo, registradas ontem à noite, na abertura do Sarau), time do Maranhão do qual éramos simpatizantes. O Larry também possuía uma, namorava uma mina de lá, inclusive. E, também por acaso, enviei para um banner que está no Sarau uma foto onde estou com a mesma camiseta. E daí, agora não por coincidência, fui ontem com a mesma camiseta para a abertura do Sarau. Bah, aquelas revistas todas que comprei fiado e li durante muitos anos muito influenciaram meu estilo de fazer crônicas... Além da RS, a MAD, Casseta&Planeta, Pasquim...

 

E assim terminou o primeiro dia do Sarau. Eu, a Carina e o Daynor Lindner, parceiro literário desde o primeiro Sarau (éramos os únicos desse tempo ontem lá), fomos na Du Zeca tomar uns chopps, comer umas batatinhas e conversar sobre o dia e o evento.

 

Hoje a vida e o Sarau continuarão. Onde estarei? Ah, tanto sei quanto não sei, né? Encontramo-nos por lá. Apareçam.

 

O XI Sarau é financiado pela lei federal Aldir Blanc, sendo diretora executiva do mesmo a escritora e professora Amanda de Paula e produtores executivos o escritor Henrique Figueiró e a professora Inês Borne. Esta décima-primeira edição tem o apoio da ASLIC, do Clube do Livro de Charqueadas e da Secretaria Municipal da Cultura.

 

João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 21/10/2025
Alterado em 27/10/2025
Comentários