João Adolfo Guerreiro
Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.
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Textos

Now we're old and grey, Fernando

 

O Fernando, lá da Colônia, filho do seu Valdir, uns tempos atrás passou aqui pela frente de casa. Quase não o conheci: careca, barbudo e tatuado. Fora isso, e fora também a vasta cabeleira de outrora ausente, é o mesmo Fernando, com aquele jeito extrovertido, sorridente, bem humorado e falante. É um pouco mais velho que eu, uns quatro ou cinco anos.

 

Recordo de quando todas as famílias se mudaram pra Cohab, no final dos 1970. Certo dia fizeram uma festa lá na casa deles e rolavam umas canções num toca-discos, sendo uma delas Fernando, do ABBA, num compacto. Dizia que a canção fora feita pra ele, eh eh eh eh , era a música dele. Faz tempo isso, mas bah! Agora estamos passados na idade, quase velhos e grisalhos, como bem diz um verso da letra: "Now we're old and grey, Fernando".

 

Mas então, como ia dizendo no inicio, o Fernando me viu sentado na calçada, parou a bicicleta e começamos a conversar sobre os velhos e os novos tempos, de como estão as coisas hoje e de como nós ficamos. Falou que tá bem aposentado, comprou um pequeno caminhão e faz fretes, mas nada muito profi. "Não tenho mais saco, João. Quero curtir a vida e ficar de boa, não to mais por essas de ficar me matando". Disse que de vez em quando sai sem celular, como naquele momento. E seguido o deixa desligado em casa. Quando toca, se ele tá deitado, seja pela tarde ou a noite, não atende. E se o chamam na frente da casa, idem. E que não trabalha domingo, nem muito tarde ou muito cedo e, nunca, com chuva.

 

Contou umas historias engraçadas a respeito desse seu jeito de levar a vida atualmente, como a de uma mulher que desejava um frete:

- Olá. É o seu Fernando?

- Ele mesmo, senhora.

- Tava tentando ligar, mas dava ocupado.

- Estava dormindo, senhora.

- Ah tá... Quero um frete. Pode ser?

- Pode ser.

- O senhor pode vir agora?

- Agora ta chovendo, senhora.

- Mas é uma garoazinha de nada...

- Mas molha, senhora.

- Pode ser mais tarde?

- Dai já estará noite...

- E amanha?

- Amanha é domingo.

- E dai?

- Domingo descanso, senhora.

- Então o senhor pode quando?

- Posso na segunda, senhora. Se não estiver chovendo.

- Então o senhor não quer trabalhar!

- Senhora, ligue para outro. Tem quem trabalhe domingo a noite e com chuva, mas eu não.

 

O pior é que estou igualzinho ao Fernando, arredio em casa e escondido no celular, amigos e parentes cobram isso de mim. Ainda bem que não sou só eu, né? Vai que é uma síndrome do pessoal nascido lá na Colônia? Ou vai ver que é a necessidade de comodidade física e mental que vem com o avançar dos anos. Ou é tudo isso somado.

 

Um bom final de semana para todos. Cuidem-se, vacinem-se, vivam e fiquem com Deus.

 

João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 09/10/2025
Alterado em 10/10/2025
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