Choramos pelos outros ou por nós mesmos? Pena ou auto piedade? Pela partida ou pela falta? Por quem perdeu ou pelo que perdemos? Pelas duas coisas, igual, ou mais por uma do que por outra? Não sei exatamente e suponho que não saibam também, embora Clarice Lispector tenha escrito em A Hora da Estrela que "quem vive, sabe". Acho mesmo que até muitos nem se coloquem essas questões. Que apenas chorem e depois sigam a vida num dia de sol, regidos pelo signo do Eclesiastes, andando, seguindo adiante.
Pode se morrer aos 83 de câncer ou ser assassinado aos 27 e um coração chorar desbragadamente, dolorido por nossa partida deste mundo, mesmo estando sentado numa bela cafeteria num bonito dia de sol tomando um bom café ao lado de um bom amigo a lhe consolar. O choro é livre, já disseram, e Quintana escreveu no caderno H que o trágico de nossos problemas é que os outros realmente não tem nada a ver com isso. "Problema é seu", isto é, problema é nosso. A única conclusão a que posso chegar com isso é a de que precisamos das pessoas e, quando determinadas pessoas partem, nos partem ao meio, levando inteiro o pedaço da gente do qual faziam parte indissolúvel. Já vivi isso, vejo isso. Todo dia um velho morre e um jovem é morto neste mundo e alguém chora a perda, pela perda da vida e a sua perda.
A boa e a má notícia é que tudo irá passar. Um dia você não sentirá mais essa dor e sentirá falta dela assim como vivia o amor e agora sente falta dele, eis que ter e perder possuem a mesma intensidade em determinado momento. Sentirá falta da dor assim como do amor, falta da intensidade. Incrível e dolorido, né? Mas sim, tu sentirás falta da dor que veio da intensidade da perda de um amor intenso. Retornando ao mais do mesmo dos dias comuns, sem aquela intensidade dos amores significativos, poderá se perguntar: Amei, mesmo? Por que não sofro mais, então? Porque a perda se perdeu? Se o tempo dilui tudo, então meu amor era frágil e se tornou poeira, sumiu no tempo? Pra onde foi aquela intensidade toda, aquela rocha que virou pó?
Tu não quer que o amor parta e se desespera com a dor da partida, mas essa intensidade toda sumirá no tempo, com o passar dos dias. Tu ficarás contente com isso, pois não suportava mais a dor, mas aquilo mexeu com algo muito vivo dentro de você e que era de uma intensidade absoluta e absurdamente incomum. Fez-te mais vivo, fez-te enxergar melhor sua própria natureza. Numa situação limite extrema nos conhecemos melhor, eis que somos uma incógnita pra nós mesmos, descobrimos. "Vivendo e aprendendo a jogar", como cantou Elis a canção do Arantes. "Tudo o que é sólido se desmancha no ar", e nossas certezas viram fumaça.
Disse um homem em 1953, segurando um exemplar de uma edição qualquer da bíblia: "- Faz muito tempo, não sou um homem religioso. É exatamente como me lembro dele. Meu Deus, como mudaram tudo isso em nossos 'salões' de hoje. Cristo agora é um da 'família'. Muitas vezes me pergunto se Deus reconhece Seu próprio filho do jeito que o vestimos, ou devo dizer despimos? Ele é agora uma guloseima em bastão, feita de açúcar cristal e sacarina, quando não está fazendo referências veladas a certos produtos comerciais de que todo fiel 'absolutamente' necessita". Soa atual, né? O problema vem de longe...
Somos, todos os que possuem 'coração', simples de coração, mesmo que não o saibamos. Quando arrogantes, julgamos e sentenciamos: covarde! Entretatno, na dor, somos criaturas frágeis que, de verdade, não compreendemos a vida, a morte e Deus. Apenas amamos e sofremos. "Todo mundo é a parecido quando sente dor Mas nu e só ao meio dia Só pra quem está pronto pro amor" - Frejat. Sentimos, por certo e exatamente. E, imersos em dores e dúvidas, fazemos perguntas. Sempre as mesmas, eis que inexistem respostas definitivas e absolutas.
Ah, mas tem a fé. Sim, mas a fé não oferece respostas definitivas e absolutas, mas sim caminhos definitivos e absolutos. De acolhimento, benfazejos e edificantes. Andar com fé. Andar...

