Um mundo utópico. Paz. Saúde. Beleza. Conforto. Luz, livros e café. Este é um mundo de expiação, dizem alguns religiosos. Mas há beleza nele e a vida pode ser bela. Boas coisas, benfazejas. Então, mesmo que todos nós morramos no final, o mundo poderia ser bem melhor enquanto estivermos por aqui, não é mesmo?
Enquanto a chuva cai lá fora, o calor no abrigo reconforta e a beleza cativa. Chove na janela da rua e chove na tela. Um mundo analógico no artificial. Artificialidades? Utopia! De um coração que sonha e sente e deseja o que sonha e sente. Nós fazemos o mundo maravilhoso e também horroroso. Os homens: ato coletivo, que inclui e exclui das maravilhas, as naturais e as analógicas e digitais do homem. A sociedade. A humanidade. A Inteligência artificial não é nem inteligência e nem artificial, disse Nicolelis: é humana, tecnologia. Vende sonho, facilidades, possibilidades e conforto.
Dá pra passar uma tarde olhando a paisagem da maravilhosa janela tecnológica artificial virtual, prodígio da inteligência e da inventividade humana, ouvindo a música instrumental suave e a chuva: só nós e as coisas. A vida é boa, a vida é bela, vista das janelas, reais e virtuais. Poderíamos viver muito, todos nós, já centenários, partindo na hora da sesta, tranquilos, após o completo ciclo da vida, sem doenças, sem guerras ou misérias, com filhos, netos e bisnetos pela casa, após o lauto almoço de domingo.
A tecnologia pode nos trazer a utopia. Mais: pode fazer nos sentirmos dentro da utopia, estarmos nela - o milagre, bendito milagre (eis que a inteligência é dádiva divina). E não é ilusão: é sonho. A ilusão sobrecarrega, o sonho alimenta. Como se estivéssemos no Natal Luz de Gramado: é sonho, não existe, mas estamos lá e isso basta pra alma, no momento. E a vida é bela e é, concretamente, feita de momentos. Existimos em cada momento em que sentimos e sonhamos.
Em paz.
