João Adolfo Guerreiro

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Escolas gaúchas: é hora de voltar?

Se ainda não possuímos vacina contra o coronavírus, qual o motivo de retornar as aulas presenciais no Rio Grande do Sul, arriscando um recrudescimento da pandemia e o consequente risco de vida para as pessoas? Qual preocupação pode ser maior do que a segurança da vida, nesse momento?

Para Ronaldo Hallal, infectologista e consultor da Sociedade Riograndense de Infectologia, “a Organização Mundial da Saúde recomenda que para o retorno de atividades presenciais exista baixa taxa de transmissão comunitária, inexistência de surtos, elevada capacidade de testagem e de isolamento. Não é o caso que nós estamos vivendo no estado e em Porto Alegre”, conforme disse em entrevista ao jornal Brasil de Fato dia 05 de outubro. Lúcia Pallanda, reitora da Universidade Federal de Ciências da Sáude de Porto Alegre, endossa: “Se não tiver como testar e rastrear a gente recomenda que não volte”. Pallanda é também presidente do Comitê Cientifico de Apoio ao Enfrentamento da Pandemia Covid-19, instituído em março pelo governo estadual.

O Cpers/Sindicato, entidade representativa dos professores estaduais, também discorda: “Nós não temos funcionários para manter a higienização necessária. A nossa preocupação é pela vida, que é o que importa. (...) Voltar neste momento é uma atitude extremamente irresponsável", declarou Edson Garcia, seu 2º vice-presidente. Garcia informa que "mais de 150 educadores foram contaminados pela Covid-19 durante os plantões nas escolas" no decorrer da pandemia no RS. A Famurs, federação dos municípios gaúchos, se posicionou contrária ao movimento de volta parcial às escolas “enquanto não houver a segurança absoluta para crianças, estudantes e servidores da educação”, de acordo com matéria do Correio do Povo do dia 6 de outubro.

O modelo de Distanciamento Social adotado pelo governo estadual teve o mérito de não deixar se repetir em solo gaúcho os grandes índices de contaminação que vimos em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza ou Manaus - esta última, onde especialistas estimam uma prevalência entre 40 e 60% do vírus entre a população -, e muito desse mérito, certamente, se deveu ao fechamento das escolas. O fato é que passamos pelo nosso período sazonal crítico de doenças respiratórias, o inverno, sem que os hospitais, em termos gerais, tenham entrado em colapso, o que era o principal objetivo da medida, além de manter uma parte da economia funcionando. Logo, não era uma ação que visasse estancar o espalhamento, mas mantê-lo controlável, evitanto um descalabro quanto a ruína da vida ou a ruína da economia, tanto que o coronavírus - e isso também é fato - continua crescendo no estado, embora os hospitais estejam com taxas de ocupação de UTI para Covid-19 hoje menores que nos meses imediatamente precedentes.

Como estamos assistindo uma segunda leva de espalhamento do coronavírus na Europa, isso demonstra que, sem a vacina, não há nada garantido mesmo após uma curva descendente de contágio que se dê em países com alto índice de testagem e rastreamento, nos moldes acima citados por Hallal e Pallanda como desejáveis, o que, repita-se, não é o caso por aqui. Vejamos  a situação na França para citarmos brevemente um exemplo, país onde 32 escolas foram fechadas apenas dez dias após o retorno das aulas, devido a contaminação por Covid-19, de acordo com matéria do site Uol de 15 de setembro.

Levando-se em conta tudo isso, cabe perguntar se vale a pena correr esse risco no Rio Grande do Sul, na realidade em que estamos? Mandar as crianças de volta para as escolas será algo seguro, no momento? Qual é a extrema necessidade de haver um retorno às aulas por aqui? Eu penso que não, pois em time que está ganhando não se mexe, como diz o provérbio popular. E estamos aqui falando de ganhar vidas contra o coronavírus, que já se mostrou ser um adversário traiçoeiro e sorrateiro, sobre cujo comportamento nós e o mundo ainda estamos aprendendo. A que ou a quem pode interessar o retorno das aulas presenciais, por motivo que se justifique, tendo-se a vida humana como prioridade absoluta?
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 08/10/2020
Alterado em 08/10/2020


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