João Adolfo Guerreiro

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Massacre de Porongos: para não passar em branco

Buenas, tchê, como ontem foi 20 de Setembro, hoje vamos relembrar um dos momentos marcantes e controversos da Revolução Faroupilha.

Em 14 de novembro de 1844 acontece o último - e infame - episódio militar da Guerra dos Farrapos, o chamado Massacre ou Traição de Porongos, onde milicianos negros que serviam aos farroupilhas, acampados nas proximidades do Cerro dos Porongos - distrito de Torrinhas, em Pinheiro Machado/RS - , foram atacados durante a noite por tropas imperiais e dizimados. No comando dos soldados do Império estava Franciso Pedro de Abreu - o "Moringue" - o mesmo que, cinco anos anos antes, matara o coronel farrapo José Manuel Leão, em Charqueadas.

Existem duas versões para esse fato: a da traição do general farroupilha David Canabarro contra os negros e a do ataque surpresa dos imperiais. Vamos aqui abordar os argumentos da primeira, eis que a segunda é o modo que, inicialmente, essa história era contada. A motivação seria que o destino das tropas de infantaria e de cavalaria - os famosos Lanceiros Negros - formados por negros fugidos de estâncias de proprietários leais ao Império era empecilho para as negociações de paz, visto que o farrapos prometeram liberdade para estes, embora ainda fossem tempos de escravidão no Brasil. Assim, a traição e o consequente massacre seria uma maneira de "eliminar" o impasse.

O jornalista, sociólogo e historiador gaúcho Juremir Machado da Silva, em seu livro A História Regional da Infâmia (1), nos traz fortes evidências da tese de traição. Em depoimento para o documentário Massacre dos Porongos (2), ele os enumera: - um dia antes do ataque, Canabrarro desarma as tropas de escravos; - apenas o acampamento destes foi atacado, poupando-se o dos brancos e o indígena; - Canabarro foi advertido em pelo menos cinco vezes, nos dias anteriores, da proximidade de tropas imperiais; - carta de Duque de Caxias, comandante das tropas imperias, a Moringue, dando conta do acordo com Canabarro e de onde, quando e como deveria se dar o "ataque supresa". Há alegações de que a carta, embora autêntica, tenha sido um engodo Imperial a fim de dividir e enfraquecer os Farrapos durante as negociações de paz. E David Canabarro negou o acordo durante toda a sua vida.

Todavia, ficam os fatos e o contexto histórico a autorizar a versão da traição, sendo o livro de Juremir leitura obrigatória para todos aqueles que desejem se aprofundar nos pormenores dessa tese. Abaixo, deixarei o link para o documentário no YouTube - foto acima -, ideal para uma visão geral e introdutória sobre o assunto.

Em síntese, sabe-se com certeza que, para os negros escravos, de forma alguma "foi o 20 de Setembro o precursor da liberdade" prometida.

(1) - SILVA, Juremir Machado da. História Regional da Infâmia. 2ª ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2010, 344p.
(2) - TVE/RS, Programa Nação: Massacre de Porongos, 7 out 2015 - https://www.youtube.com/watch?v=-EaXk-5lCpE&feature=youtu.be&fbclid=IwAR0XaUdccJl26eFVbh_F5M1NlV4zf2jzYYLP4X44krU0g2noD4PXHfWv5tA
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 21/09/2020
Alterado em 21/09/2020


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