João Adolfo Guerreiro

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Textos


Alberto André: 60 anos de vida, 45 de música

O cantor, compositor e instrumentista Alberto André completou em janeiro 60 anos e, também agora em 2020, se aposentou como músico, em fevereiro, após 36 anos de contribuição total, 27 deles como profissional da música. Quantos artistas populares com atuação regional conseguem se aposentar em sua profissão, nos dias de hoje? Mais um feito de um produtor cultural único, com uma carreira erigida, principalmente, pela voz bela e afinadíssima e pelo violão MPB competente.

Alberto André tem no currículo a fundação do Grupo Voz Ativa, em 1980, junto com outros três músicos charqueadenses: Laury Johnson, Paulo "Alemão" Araújo e Charlon Fernando - mais tarde substituído por Antônio "Nico" Alfama, devido ao seu falecimento -. Antes disso, esse filho de Arroio dos Ratos subiu ao palco pela primeira vez em Charqueadas, tocando pandeiro no grupo Samba Suor e Cerveja, num Baile do Chopp da Escola de Samba ESUB, no Clube Tiradentes, em 1975, aos 15 anos. Nos anos de 1976 e 1979. continuou batucando seu pandeiro pela cidade, acompanhando a dupla Aluba e Laíza Peres. Em 1977 foi num show dos Almôndegas (1), também no Clube Tiradentes, e decidiu que era isso o que faria em sua vida. E fez mesmo, pois o cara sempre teve uma baita personalidade e lúcida determinação. Aliás, foi o que fez o Voz Ativa tomar corpo a partir de dezembro de 1979, quando o violonista Sérgio "Tatinha" Duarte deixou o grupo em que tocavam, o Volantins do Samba: Betinho resolveu aprender de vez violão em quatro meses, a tempo da estreia do futuro grupo em abril do ano seguinte.

Eu conheci o Betinho, como todo mundo da minha geração na região, via o Voz Ativa, quando eles lançaram um compacto em vinil em 1983 (Estúdio EgerProduções, Porto Alegre) ano em que participaram da edição regional do programa Fantástico, da Rede Globo, com o vídeo clip da icônica canção Forró Estilizado (2), gravado na cidade de Charqueadas. Em 1985 o grupo parou, mas ele não. Gravou, em 1990, nos Estúdios ISAEC, em Porto Alegre, com a Banda Luz (Marcelo Bacci, Beto Carbonari, Eduardo D'Avila e Alemão Araújo), o LP Íntimo, outro clássico - adoro esse trabalho, uma influência -, recheado de canções que marcaram época como Subtração, Incerteza, Sozinho, Lutz Luz e Beijo Baton, dentre outras. E, dentre essas outras, está Me Faz Levitar (3), um grande sucesso local: "A tua boca carmin Sorrindo para mim um sorriso de hepatite Nos teus olhos saquei o convite Tuas palavras sem nexo que eu Nada imaginava a não ser Fazermos sexo fazermos sexo Teu corpo é um lago que eu Cheio de trago ainda vou mergulhar Os seios com pontas lilás E abundância na parte de trás Que me faz levitar que me faz levitar" (4). Uau syl, marcou época. Virei, definitivamente, fã, claro. Em Íntimo fez parcerias com Mário Falcão (Alma) e Alexandre Vieira (Ruptura) e contou com as participações de Luis Francisco, Ricardo Sieben, Sílvia Helena, Luiz "Fofão" Rogério e Domingos.

Tocando na noite, trabalhando em estúdios e dando aulas, Betinho garantiu a sobrevivência, enquanto seguia com a carreira artística de cantor, compositor e instrumentista, participando de diversos festivais e produzindo trabalhos solo. Em 1998 lança outra obra referencial, com o músico Luciano "Belgrado" Souza. O CD Outros Tempos, produzido em seu estúdio caseiro, o Coqueiros Records Digital, onde mescla novas versões de antigas canções com material novo, como as parcerias Lamina do Aço (Carlos Patrício), Outros Tempos (Rogério Hoch), Sobreviver (Rosilane Rocha), No meio da calçada (de Alexandre Vieira) e a lírica e belíssima Caminhado por aí (5): "Caminhando por aí Pelas alamedas de ciprestes Mente nua, pés descalços Topei numa pedra dura Não doeu só em mim". Tocaram em Outros Tempos os músicos Alemão Araújo, Ricardo Sieben, Solange Diniz, Sílvia Helena, Ivan Correa e Gilson Pedreira, com participação especial de Dona Leda, mãe de Betinho.

O CD Saudade Mineira, de 2001 (Coqueiros Records Digital), masterizado no estúdio Áudio Laser, de Alvorada, registra antigas marchinhas de carnaval da cidade de Arroio dos Ratos, das décadas de 1930, 40 e 50, compostas, em sua maioria, pelos músicos da família Keenan. Laíza Peres, Luciano Souza, Alemão Araújo, Roberson Chocolaty e Gustavo Neto acompanharam Betinho nesse projeto.

Em 2005 é a vez do CD Bem Simples (Coqueiros Records Digital), com este que vos escreve nos violões solo (Parêntese: para mim foi o máximo tocar com um artista tão bom, que muito havia me influenciado e do qual eu era fã. Aprendi muito, foi uma experiência única). Ali aparecem canções em parceria com a poeta Cheila Stumpf (Aguaceiro, Temores e Só a chuva), Laíza Peres (Ciça Cecília), José Valdir (A bomba), Rogério Hoch (Pornografia), além de composições de Carlos Patrício (É poesia) e Mário Falcão (O índio que foi azarado). Pescador de Lambari (6), de sua autoria, integraria também o CD Encanto da Terra, da Mostra de Música de Charqueadas. Dessa vez, o músicos convidados foram Ricardo Sieben, Gilson Pedreira, Roberson Chocolaty e o ex-Voz Ativa Laury Johnson.

O último CD que compôs foi Claridade, em 2009, disponibilizado apenas na internet (7). Nele, Betinho grava todos os instrumentos na Coqueiros Redords Digital. Um trabalho cheio de lirismo e poesia nas letras. Canções despojadas, mas não pobres, pois carregadas daquela sutileza simples e rica que os músicos que já aliam a experiência ao talento sabem utilizar nos arranjos, harmonias e melodias. Parcerias com Laíza Peres (Ciça Cecília), Valda Tissot Junqueira (A cor do amor), Charlon Fernando (Querubim - in memorian) e Cheila Stumpf (Pássaro Ferido) e uma composição de Alexandre Vieira (No meu país). Entretanto, destacaria uma canção sua, Pedalar (8): "Pedalando o preconceito Mau humor e baixo astral Sendo uma pessoa do bem Transformando o que não tá legal Pedalar, pedalar, pra não poluir..." 

Alberto André também foi um músico comprometido com as causas de sua classe e da cultura em geral, tendo sido secretário da Cultura em Charqueadas e presidente do Conselho Municipal de Cultura, sendo sob sua gestão criadas as leis do Fundo Municipal de Cultura e da Agenda Cultural de Charqueadas. Por cerca de três anos foi delegado do Sindicato dos Compositores do RS, durante as gestões de Airton Pimentel e Izabel L'Aryan. Antes de se aposentar, Betinho vinha (e continua) se dedicando ao ofício professor de violão, ministrando suas aulas em espaço no Sindicato dos Metalúrgicos.

Esse texto é só o resumo de uma história artística que cairia muito bem numa biografia mais extensa, dada sua importância e influência para a música na Região Carbonífera. Esse é Alberto André (9), que foi atrás de seus sonhos e os realizou, vivendo do ofício pelo qual se apaixonou naquele show dos Almôndegas. 
 

(1) - Grupo pioneiro da música pop gaúcha, o primeiro dos irmãos Kleiton & Kledir e de seu primo Pery Souza. Lançaram cinco LPs entre 1974 e 1978, com canções conhecidas como Vento Negro, Haragana e Canção da meia-noite.
(2) - Forró Estilizado, clip: https://www.youtube.com/watch?v=5ay_zAiC5LI
(3) - Me Faz Levitar: https://www.youtube.com/watch?v=lw4H-emz5lI
(4) - Me Faz Levitar: https://www.youtube.com/watch?v=Wz5fF40KPOM
(5) - Caminhando por aí (versão de 2005): https://souzaguerreiro.com/audio.php?cod=4604
(6) - Pescador de Lambari: https://souzaguerreiro.com/audio.php?cod=26997
(7) - CD Claridade: https://www.souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=1630836
(8) - Pedalar: https://www.souzaguerreiro.com/audio.php?cod=22242
(9) - "A lenda" - https://souzaguerreiro.com/visualizar.php?idt=2427425
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 27/08/2020
Alterado em 28/08/2020


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