João Adolfo Guerreiro

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"Mulher do padre"? Bem capaz. "Mulher do papa"!

Lembram daquela corrida de criança onde o último era "mulher do padre"? Pois é, parece que a alemã Josephine Lehnert (1894 - 1983) sempre chegou em primeiro lugar nela, eis que foi uma menina com inteligência acima da média, estudiosa, trabalhadora, vontade forte e que pretendia ter algo mais desse mundo do que uma vida de camponesa pobre.

Eu vou fazer hoje algo que nunca fiz aqui em oito anos de Portal de Notícias: indicar um filme que passará na TV para vocês assistirem. Sim, isso mesmo. O nome dele é Irmã Pascalina, e vai ao ar nesta terça-feira, em dois horários, na TV Pai Eterno (canal 38.1): 22h10min e meia-noite. O que tem a ver o filme com a "mulher do papa"? Pois Irmã Pascalina é justamente o nome religioso de Josephine. Vamos contar algumas coisas sobre essa incrível mulher, personagem desconhecido, mas importante da primeira metade do século XX, tentando não estragar a surpresa do filme para quem, quiçá, vá conferir.

Bom, como eu ia escrevendo, Josephine possuía um gênio forte e determinado (tipo assim uma Santa Terezinha), tanto que saiu da casa dos pais, contra a vontade do genitor, para ser freira. Em 1917, aos 23 anos, recebe a oportunidade de sua vida: sua madre superiora a chama para incumbí-la de servir de governanta ao novo Núncio Apostólico (um embaixador) do Papa Bento XV em Munique. Ela adora a tarefa, vai para o lugar e já chega colocando tudo em ordem, faxinando geral, mesmo. O núncio, arcebispo Eugênio Pacelli (1876 - 1958), italiano de Roma, de 41 anos, gosta da jovem alemãzinha trabalhadora, inteligente e prestativa, tanto que ela seria, na prática, sua secretária particular e governanta pelos próximos 40 anos. Foi a junção da fome com a vontade de comer, no bom sentido, claro. O que não passou desapercebido por muitos, provocando ciúmes até na madre superiora, além do falatório sobre a relação muito próxima da jovem e graciosa freirinha com o núncio, se é que me entendem...

Na verdade, Josephine, uma pessoa dotada de gigantescas iniciativa e vontade, mostrou que era possível servir sem ser servil, obedecer sem ser autômata e ser leal sem ser canina, e isso agradou ao arcebispo - um homem notadamente à frente de seu tempo percebendo uma religiosa na mesma condição - na mesma medida em que contrariou outros religiosos. De fato, a neura contra foi tanta que Pacelli, a certa altura do campeonato, ameaçou usar sua influência no Vaticano para que não lhe tirassem a secretária e governanta que, além de cuidar de sua comida e remédios (ele sofria muito com seu estômago fraco), organizava as impecáveis festas que eram dadas na Nunciatura (com a presença do presidente alemão e outras altas figuras sociais e politicas), punha em ordem seus documentos, datilografava seus textos e, inclusive, dava pitacos nos mesmos, devido sua inteligência e cultura. Uma mão na roda, essa freirinha, superultrahipermega útil. Ah, esqueci de dizer, ela era bem baixinha, mesmo.

Bom, em 1929 Pacelli foi convocado pelo papa para ser o Secretário de Estado do Vaticano, já como cardeal. Mas mulheres não trabalhavam na Santa Sé! E agora? Buenas, não seria esse "detalhe" que impediria uma mulher como Josephine a trilhar o seu caminho, ou seja, assessorar o Cardeal Pacelli. Ver como foi isso eu deixo pra quem assistir o filme. O fato é que ela acabou indo pro Vaticano, tornando-se a primeira religiosa autorizada a trabalhar na Santa Sé, e levando mais duas freiras junto, a fim de "secretariar" o papa. Isso mesmo, eu escrevi o papa, ora! Pois não é que em 1939, pouco antes de estourar a Segunda Guerra Mundial, Bento XV morre e Pacelli é escolhido como novo Sumo Pontífice, o Papa Pio XII? E Josephine e suas companheira foram, também, as primeiras mulheres a acompanharem no Vaticano um Conclave. Mas bah, tchê, essa era das minhas, tri pioneira!

Assim, em seu papado o abacaxi da posição da Igreja Católica em relação ao nazismo teve de ser descascado, com o agravante do Vaticano ser praticamente um bairro dentro de Roma, numa Itália governado por Mussolini, aliado de Hitler na guerra. O papa resolve não bater de frente com os alemães, visto que Hitler já dera claras indicações de que, caso a Santa Sé rompesse contra ele sua histórica neutralidade, passaria chumbo nos padres. Opta por agir na surdina, condenando a perseguição aos judeus e os asilando nas igrejas. É um tema controverso até hoje esse - em março desse ano a Igreja Católica abriu os arquivos do seu pontificado -, mas no filme, centrado na figura ímpar de Irmã Pascalina, é mero pano de fundo.

Os ingleses vão à Roma ver o papa a fim de cobrar uma posição forte deste. Com a negativa, os jornais britânicos enxovalham Pio XII, aproveitando-se justamente de... Irmã Pascalina! Numa charge, ela apare gigante, sentada sobre a cúpula da Basílica de São Pedro, com uma suástica pendurada no pescoço e com o título de "papisa". Esses anglicanos, desde que Henrique VIII rompeu com Roma para poder casar com Ana Bolena - puxa vida, o rei estava apaixonado mesmo -, não respeitavam mais as autoridades católicas! Claro que a galhofa insinuava tanto que a alemoa influenciava o papa em favor de Hitler (uma falácia) quanto que era a "papisa", ou seja, a "mulher do papa" mesmo, e não uma nova "Papisa Joana", lenda do século IX.

Tudo intriga e inveja da oposição, obviamente. Pascalina continuou no Vaticano assessorando e cuidando da saúde de Pio XII, batendo de frente com vários outros assessores que, na maioria das vezes, levavam a pior no confronto. Um deles, inclusive, que não escondia sua dificuldade em lidar com Irmã Pascalina, era o arcebispo Giovani Montini, que viria a ser, anos mais tarde, o Papa Paulo VI. Sim, nem ele podia com Josephine, que era da absoluta confiança de Pacelli há décadas. E quem é que se atreveria a ensinar o papa a ler a Bíblia, contrariando-o nesse caso? Ninguém, né.

E assim ela reinou no Vaticano até a morte de Pio XII, em 1958. Morreu na Áustria, aos 89 anos, de derrame cerebral. Uma pena, era um grande cérebro de uma grande mulher. Não percam a dica, assistam ao filme, tem muito mais coisa lá, é bem engraçado, até. Guardem o horário das sessões: 22:10 e meia noite.



Crônica publicada no site do jornal Portal de Notíciashttps://www.portaldenoticias.com.br/colunista/53/cronicas-artigos-joao-adolfo-guerreiro/
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 21/07/2020
Alterado em 25/07/2020


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