João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


O centenário da Divina

Ah, música popular brasileira, a tal da MPB, criticada pela tia-avó do rock nacional Rita Lee. "Tanta gente, tanta alegria" - oops, esses são os Mamonas Assassinas, rock nonsense, mas está valendo, pois, creiam ou não, gente de pouca fé ou de Fé Cega e Faca Amolada - como na canção do Milton, esse sim, do Clube da Esquina, MPB genuína, mineira - "A Divina" era mega nonsense, uma Nair de Teffé (Conhece, né? Se não, veja o vídeo do Eduardo Bueno sobre ela.) vinda da periferia, mas mais desafidora e mais dona de si mesma e de sua voz.

Elisete Moreira Cardoso nasceu em 16 de julho de 1920 no Rio de Janeiro, no subúrbio próximo ao Morro da Mangueira, pobre. Bem, até aqui, sem novidade no front. O pai era tocador de violão, a mãe cantava e a família era da turma da Tia Ciata (Não sabe quem é essa? Pesquise no Google, urgente!), logo, tudo Gente Humilde do Chico (Esse mesmo que tu pensou, o Buarque de Holanda, outra fera da MPB), mas tudo pessoal do samba, da arte. E Elisete puxou a mãe, grande voz e puro talento, apreciadora do "Ébrio" Vicente Celestino (já escrevi sobre ele aqui no Portal). Buenas, com toda essa mistura, lógico que ia dar samba, e dos bons, como realmente deu.

Entretanto, como eu disse, eram Gente Humilde e, assim, aos dez anos de idade, Elisete começou a trabalhar como pedicure, cabeleireira, telefonista e vendedora de cigarros para ajudar no sustento da família. Só foi ter a sua primeira festa de aniversário aos 16 anos, mas foi nela que a sua vida suburbana começou a mudar. Seu pai convidou uns músicos amigos seus para a boca livre, gente de nome como Pixinguinha, Dilermando Reis e Jacob do Bandolim, todos grandes figuras da música brasileira que não precisam de apresentação. E mandou a filha cantar para os camaradas, o que ela, envergonhada, por obediência, fez. Os amigos babaram com a voz maravilhosa da guria. Jacob levou-a para um concurso na Rádio Guanabara, a guria perdeu a timidez e o resto é a história da grande cantora brasileira Elizeth Cardoso, A Divina, por sua grande voz.

Mas eu também disse que Elisete, agora Elizeth, possuía atitude à frente do seu tempo, atitude rock'n roll, mesmo sendo diva do samba, ícone da MPB. Na verdade seu pai se arrependeu da ideia da festa, pois não queria uma filha exposta ao mundo artístico, só que a sua - e do mundo - Elizeth tinha uma grande voz e também um grande gênio, muito forte. Contra a vontade paterna, seguiu carreira no rádio, cantando com seu ídolo Vicente Celestino e também com nomes como de Noel Rosa (Tá, esse tu sabe quem é, né?). E conheceu o grande jogador Leônidas (E esse, sabe?), com quem começou a namorar, mais uma vez contrariando o pai. Acabou saindo de casa aos 17 anos para morar com o boleiro, só que não quis casar com ele, pois não sabia se era o que queria. Imagina, estamos falando da década de 1930! E ela saiu aos 17 de casa e ainda por cima não casou, só morou junto! Não falei, mega rock'n roll a Elizeth. Mulheraça com M maiúsculo, ou melhor, gigantesco!

Claro que depois disso muita coisa aconteceu em sua vida. Ela adotou uma menina, largou Leônidas, casou, engravidou, teve filho, separou, ficou sem grana, virou taxista, deu a volta por cima em sua carreira e estourou nos anos 1950, viajou o mundo - até no Japão esteve -, namorou uns caras, mas nunca mais quis saber de casamento, eis que não era pra uma garota bossa nova / samba canção / rock'n roll esse tipo de vida. Foi a primeira e uma das únicas mulheres negras a aparecer na capa da revista O Cruzeiro - a prestigiada e top da época, de circulação nacional. Cantou vários clássicos da velha MPB que tu já deve ter escutado, como, dentre outras, Chão de Estrelas, Barracão, Chega de Saudade, Naquela Mesa ("...tá faltando ele") e Eu Bebo Sim. Aliás, não sei se tem a ver - não fui médico nem sou biógrafo dela, oras -, mas A Divina morreu em 7 de maio de 1990, aos quase 70 anos, de câncer no estômago.

E era isso. O que mais se precisa saber de Elizeth Cardoso, A Divina? Nada, oras. Vá escutar "as canções, que a gente quer ouvir" (E do Tavito, mineiro como o Milton, tu lembras?).

PS - Para registrar e não deixar passar em branco, também fez 100 anos de nascimento esse mês, dia 5, "a primeira diva negra brasileira", Carmen Costa, intérprete de clássicos da MPB como Marcha do Cordão Bola Preta, Onde Está o Dinheiro?, Marambaia, Está Chegando a Hora, Cachaça ("Você pensa que cachaça é água?") e Obsessão. Faleceu em abril de 2007.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 16/07/2020
Alterado em 16/07/2020


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