João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Bom dia de sol

Bom dia! Hoje, depois de uns dias "ciclônicos", o sol nasceu tão bonito, vocês viram? Ainda tem um ventinho geladinho, mas o sol chegou chegando, hoje. Dormiram bem? Sonharam com o que? Eu tive um sonho legal. Sonhei com o campinho lá da Cohab. Até falei com o Marcos Fereira no Face, agora de manhã, sobre isso.

Viemos da Colônia pra Cohab no final de 1978. E tinha o nosso campinho lá. Um campo grande, na verdade, ali na Super Quadra 2, uma quadra inteira, área vazia. O terreno era meio inclinado, mas isso não era impedimento algum para a gente. Fazíamos as goleiras de pau e dê-lhe bola, todo o dia, o dia inteiro. Eu morava em frente ao campinho, na super quadra 2, quadra 9, casa 1. Toda a minha carreira no futebol, iniciada aos 10 anos, deu-se ali, intensa. Inesquecível. Do verão ao inverno, fizesse chuva ou sol, frio ou temporal, nada nos impedia. Aliás, não havia impedimento, podia-se pescar. Eu não era pescador, era zagueiro.

Sim, era dos piores, mas não nó-cego a ponto de não poder formar a dupla de zaga com o Oberdan, que jogava bem. Oberdan, colorado, mas com nome de zagueiro do Grêmio. Era irmão do Luciano, esse bom de bola, canhoto, jogava sempre lá na frente. Não podiam ser fisicamente mais diferentes os irmãos Lombardini. Como na canção do Gaúcho da Fronteira: "Um é a cara da mãe, o outro o focinho do pai". O Luciano loiro e magro, como a mãe; o Ober cheínho e moreno, como o pai.

Minha carreira durou uns sete, oito anos, ali. Fiz os meus gols nas peladas de todo dia, de cabeça e com o pé, de direita e esquerda, pois até que chutava bem e forte. Nos jogos valendo, nos clássicos, não recordo de ter feito gol. Ficava fixo lá na zaga, marcando o Macarrão, loiro e baixinho, esse era craque, jogava muita bola, demais. Era do time "do pessoal lá de baixo", da Super Quadra 1. Eles jogavam no campo que ficava onde ainda é o Centro Comunitário da Cohab. Era por pacotinhos de Ki-Suco o clássico, um por jogador. Quando os jogos eram lá no campo deles, eles venciam a gente; no nosso, a gente ganhava. Do mesmo jeito as brigas ao final da partida: lá a gente apanhava, aqui a gente batia. O fator local contava muito, para tudo, eh eh eh eh.

Os primeiros a se mudar dali, para Sapucaia, foram o Oberdan e o Luciano, lá por 1987, 88. E todo mundo já em tempo de servir o quartel, a nossa geração foi pendurando os "kichutes" - ninguém tinha chuteira. Tempos depois eu me enamorei e mudei para o Centro. Construíram uma creche no local. Meus pais ainda moram na mesma casa e minha irmã bem perto deles. Meus três sobrinhos não puderam jogar no antológico campinho. Já era apenas uma pálida memória no tempo deles. Perderam essa convivência que tivemos lá, com o pessoal das redondezas. A história deles é outra, cada um e cada geração tem a sua biografia. Um deles, o mais velho, é tri bom de bola, até foi indicado para treinar no Juventude quando treinava na escolinha do seu Wilson, mas estourou o joelho ainda novo. Hoje trabalha numa loja autopeças e casou. Ele lembra o biotipo do Luciano, é claro, só que tem o cabelo crespo, que nem o meu. É a cara do pai dele. Os outros dois são morenos, a cara da minha irmã, ruins de bola como eu e moram lá na Cohab. Agora não é mais Cohab, é Bairro Sul América, deixou de ser Vila Cohab.

Então tá, hoje o dia nasceu bonito e eu tive um sonho legal, revival dos meus tempos de guri lá na Cohab. Como dizia o Mendes Ribeiro ao final de seus programas no rádio ou na TV, "foi um privilégio ter estado com vocês". Um bom dia para todos aí.


Texto publicado no site do jornal Portal de Notíciashttp://https://www.portaldenoticias.com.br/colunista/53/cronicas-artigos-joao-adolfo-guerreiro/
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 09/07/2020
Alterado em 09/07/2020


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