João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


A chuva cai lá fora

"A chuva cai lá fora, você vai se molhar". Está como na canção da saudosa Beth Carvalho. Não fosse pelo oculto espreitando pelas ruas, tal "como um aniMAL que ronda" da Rosana, eu diria se tratar de um dia normal de outono, com chuva e temperatura mais baixa. Só que não. A gente sabe disso. "Quem vive, sabe", como disse a Clarice Lispector em A Hora da Estrela - eu gosto muito de citar essa frase, ela é ótima. E, muitas vezes, para a gente ficar vivo em determinados momentos, precisamos dos profissionais de saúde. E hoje é o Dia das Enfermeiras (os).

Um servidor da segurança pública que conheço estava trabalhando lá no estado do Pará, onde a situação gerada pela pandemia está gravíssima, um quadro tétrico. Vejam só o nome dele: Belaguarda. Tudo a ver com a profissão. Foi lotado muito tempo aqui em Charqueadas, tri gente fina ele. Estava lá no Pará, estava na chuva, e quem está na chuva é para se molhar, não é mesmo? Sim. E o Belaguarda se molhou, em serviço. Foi acometido pela Covid-19. Já se recuperou, graças a Deus, as enfermeiras e aos demais profissionais de saúde que trataram dele. Sim, até porque Deus age no mundo por meio da gente, uns cuidando e ajudando os outros. Ele tem 44 anos, não é do grupo de risco, mas passou por maus bocados. Teve de ser transferido para Brasília, para o Hospital Regional de Asa Norte. Chegou a postar no Facebook dia 6 de maio: "Valorize cada litro de ar que Deus coloca no teu pulmão desde que acorda e até quando está dormindo".

Eu soube por uma amiga em comum que ele estava doente, mas que estava se recuperando, uns dias atrás. Ontem fiz uma postagem sobre o Cauby Peixoto numa rede social e de repente aparece lá o Belaguarda comentando, todo catito. Coisa boa! Óbvio que fui na linha do tempo dele ver as publicações e comentar algo. Hoje, voltando lá mais uma vez, vi essa postagem que ele fez pelo Dia das Enfermeiras e a achei perfeita:

"Parabéns a todos os profissionais de enfermagem pelo seu dia, obrigado por cuidarem tão bem de nossa saúde. Hoje estou em Brasília, prestes a ter alta do hospital HRAN, onde encontrei profissionais que não mediram esforços para salvar minha vida. Eu nem sei da vida particular deles, se tomaram café da manhã, se beijaram o filho antes de sair, se abraçaram o marido, se pagaram suas contas, e mesmo assim chegam com todo amor e comprometimento em salvar um desconhecido. E minha homenagem especial vai para Val, enfermeira que ama o que faz, a qual devo minha vida, nos piores momentos da minha vida, quando o Covid me batia forte ela, mesmo infectada, não largou minha mão em um só momento, controlando minha febre com uma bacia de água fria e um pano molhado. Controlou cada medicação que eu teria que tomar. Acordava de madrugada e ela estava ali, sentada do meu lado me cuidando. Se consegui chegar vivo em Brasília, foi porque ela cuidou de mim. Fica aqui minha homenagem e gratidão, obrigado por tudo". A Val a que ele se refere é namorada dele, enfermeira e que também passou pela Covid-19, assim como muitos prosissionais de saúde pelo Brasil e pelo mundo que saem à chuva pelo bem dos outros, alguns perdendo a vida para salvar a de pessoas "que nem sabem da vida particular delas". Felizmente não foi o caso do Belaguarda e da Val.

Faço minhas as palavras do Belaguarda para homenagear todas as enfermeiras e enfermeiros pelo seu dia. Vocês são imprescindíveis, sempre, e mais do que nunca agora, nesse momento sem prededentes para todas as gerações que vivem nesse planeta. Minha mãe vem enfrentando problemas de saúde do ano passado pra cá e passamos por uns três hospitais. Sou muito agradecido a todas as enfermeiras com as quais tivemos contato, tive mais uma vez a consciência da importância desses profissionais.

Fiquem tem casa, só saiam por imperiosa necessidade, cuidem-se, usem máscara, lavem as mãos e mantenham distanciamento social visando não sobrecarregar esses profissionais e assim ajudando-os a salvar vidas e a não adoecerem. O desleixo aumenta o espalhamento do vírus, o número de doentes e lota os hospitais, agravando a situação das pessoas e dos profissionais de saúde. Não piorem as coisas, não tornem essa chuva uma tempestade torrencial.

Que Deus proteja a todos.

PS - Na foto, Florence Nigthingale, enfermeira ítalo-inglesa cujo nascimento, ocorrido há exatos 200 anos, marca esse dia.


Texto publicado no site do jornal Portal de Notícias: https://www.portaldenoticias.com.br/colunista/53/cronicas-artigos-joao-adolfo-guerreiro/
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 12/05/2020
Alterado em 23/06/2020


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