João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


DIA DO TRABALHADOR lutar pela vida

Não vou nesse momento contar aquela história que todo mundo sabe, mas ou que já esqueceu ou que não se importa, de que a origem do Dia do Trabalhador está ligada à luta por direitos dos operários durante o século XX. O que temos hoje, e o muito que perdemos no Brasil nos últimos cinco anos, não vieram do nada, foram construídos com a luta de muitos, a custo da própria vida, inclusive.

A vida, eis sobre o que eu quero escrever hoje. Existir é uma dádiva. Viver é um privilégio. Entretanto, juntemos as duas coisas na palavra vida. Sem vida, nada nos importa. Viver é, portanto, fundamental, essencial. Nada se coloca, a princípio, acima da vida. Poucas coisas e renúncias justificam arriscar a vida. Nesse Dia do Trabalhador, mais importante que a luta pelo pão, é a luta pela vida. Morreremos de fome sem o pão, mas não comeremos o pão se estivermos mortos. E, atualmente, não é o perigo da fome que coloca em risco a vida dos trabalhadores, mas sim a pandemia.

Como não há remédio ou vacina para a covid-19, o isolamento social é a única forma que, pelo visto na experiência de outros páises, atenua de fato o espalhamento do vírus causador. Há medidas mais extremas, como a quarentena e o lockdown, mas o isolamento já nos permite um resultado satisfatório, se for cumprido pela sociedade com o apoio das esferas de governo municipal, estadual e federal.

Há os que dizem que a economia deve ser priorizada, mas esses colocam em perigo a vida das pessoas situadas nos grupos de risco, insofismavelmente. Não há como priorizar, nesse caso, a vida e a economia simultaneamente, tentar as duas coisas é, na prática e de fato, secundarizar a vida, arriscando-a. E podemos observar que, pela realidade que vemos no Brasil e no mundo, são os mais pobres os que ficam mais expostos à pandemia, por motivos vários decorrentes de sua situação sócio-econômica que nem me darei ao trabalho de discorrer aqui por entender o leitor uma pessoa inteligente, que sabe disso, por se tratar do óbvio ululante.

Então, a prioridade deve ser a vida e, assim sendo, o isolamento social é a medida "menos extrema" que tem se revelado eficaz. Não que o temor pela ruína financeira não seja justo e pertinente, é que a ruína da vida urge, no momento. E, se a ruína da vida vier com uma grande escala de mortes, a ruína econômica - com o desemprego e atrasos salariais em massa - virá de qualquer modo, pois as pessoas vão naturalmente se retrair e é melhor então que isso ocorra minimizando-se a ruína da vida, que já é um fato cotodiano, ou seja, que já está vindo também. E melhor é ter-se agora uma forma de minimizar os efeitos da ruína econômica sobre os mais nescessitados e vulneráveis do que deixar para fazer isso quando e se (tomara que não!) a vaca for para o brejo. Um mato sem cachorro. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

E, a propósito disso, podemos dizer que é mais provável, extremamente mais provável, as pessoas morrerem da covid-19 do que de fome, eis que várias ações sociais dos governos aliadas a iniciativas da sociedade civil e de empresas públicas e privadas já acontecem hoje visando a proteção das pessoas mais fragilizadas, as desempregadas e as que ganham pouco. Então, a questão não é e nunca foi "morrer doente x morrer de fome?", mas sim "o quanto é possível minimizar as mortes das pessoas situadas nos grupos de risco vitimadas por uma doença para a qual não existe vacina ou tratamento de cura?"

Os trabalhadores assalariados, os autônomos, os micro e pequenos empreendedores e os desempregados, os segmentos sociais mais vulneráveis nesse momento, deveriam sim ser mais protegidos visando-se o cumprimento do isolamento social. Como? Pela lógica do "quem tem, põe, quem não tem, tira". Deveríamos estar, penso (e não sou o único a pensar isso, pelo que leio na grande mídia), no modo "economia de guerra". Um fundo social de emergência, visando atender as demandas essenciais de alimentação, água e luz desses setores sociais e do sistema público de saúde, com o dinheiro remanejado dos orçamentos de prefeituras, estados e União e sobretaxação emergencial e progressiva de grandes empresas, bancos, fortunas e salários e rendimentos do setor público e da iniciativa privada acima do limite de isenção do imposto de renda, tanto de ativos quando de inativos. Com isso, com o sacrifício excepcional e transitório dos que possuem "gordura para queimar", o bem comum e a vida seriam colocados em primeiro lugar, nesse momento único e inédito pelo qual todas as gerações vivas no Brasil e no mundo passam. Sei que a coisa não é tão simples assim e que tal dependeria de uma vontade política que esbarraria em interesses econômicos e fundamentalismos ideológicos de mesma natureza. Mas é um caminho a se trilhar, com a ajuda de cientistas da área econômica. Melhor isso do que ver as pessoas morrerem agonizantes por asfixia em hospitais superlotados e sem respiradores, não é mesmo? E os prognósticos para o Brasil não são bons, vide os números a mostrar o crescimento, acima da média mundial, tanto do espalhamento quanto da taxa de mortalidade em nosso pais, de forma mais grave em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Amazonas e Pará. Só a desinformação, a má-fé ou a cegueira ideológica não enxergam esse quadro.

O problema não é pensar como o mundo será depois que tudo isso passar, mas sim o que faremos hoje para lidar com o problema priorizando-se a vida. É uma reflexão de feriado, feita no Dia do Trabalhador, esse que está mais desprotegido nesse momento, principalmente se desempregado. O Dia do Trabalhador, portanto, é, no momento, um dia de lutar pela vida, mais do que por salário e direitos trabalhistas. Prioridade é prioridade.

Um bom final de semana para todos. Cuidem-se. Fiquem em casa e fiquem com Deus.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 01/05/2020
Alterado em 01/05/2020


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