João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Brasília sessentona

"Como se não fosse tão longe / Brasília de Belém do Pará / Como os castelos nascem dos sonhos / Pra no real achar seu lugar" - canta Oswaldo Montenegro em Léo e Bia. E a distância é longa mesmo! Em linha reta, 1.594 quilômetros, mas por estrada são 1941 (parece ano de enchente, eh eh eh eh), com viagem estimada de 30 horas. Um plantão e mais um expediente na estrada.

Montenegro, carioca de nascimento, morou em Minas Gerais e atualmente reside em Brasília. Lembrei dele e da canção por isso. Assim como também recordo de outro mineiro, o "presidente bossa nova" Juscelino Kubitschek, o que fez "50 anos em 5" e, durante seu governo, em 21 de abril de 1960, há redondinhos 60 anos hoje, inaugurou Brasília, nossa capital federal, tirando-a do maravilhoso litoral do Rio de Janeiro, da bela Baía de Guanabara natal de Montenegro, transferindo-a para o Planalto Central, região Centro-Oeste, coração do Brasil - que seria também a sua cabeça a partir dali.

Era sonho antigo essa mudança, estava até na Constituição Republicana de 1891! Antes, ainda, em 1761, o Marquês de Pombal já pretendia colocar a capital do Brasil Colônia, então em Salvador, para o interior do continente. Em 1813 o jornalista Hipólito José da Costa - fundador do primeiro jornal no país, o Correio Braziliense -, redigiu artigos defendendo a mudança. O primeiro a chamar a futura capital de Brasília foi o "Patriarca da Independência', José Bonifácio, em 1823. Aliás, em 7 de setembro 1922, no centenário da Independência do Brasil, governo de Epitácio Pessoa, foi assentada a pedra fundamental da futura capital lá mesmo na região onde Juscelino a fundou. Tá tudo isso lá na Wikipedia. Uma mão na roda ela nessas horas, vale a pena ir ver, tem muita coisa legal lá sobre Brasília - menos o Oswaldo Montenegro - que eu nem sabia.

E Juscelino realmente foi um cara que não pensou pequeno, pois inaugurou a cidade no mesmo dia em que se comemora o aniversário de... Roma! Mazáááá. E hoje é feriado de Tiradentes, mártir da Inconfidência Mineira, então o presidente realmente não deixou ponto sem nó em 1960. E o que eu me lembro assim, de cabeça, além de Montenegro e Juscelino, sobre nossa capital, eis que gaúcho - da Colônia - de nascimento, que nunca foi lá?

Do Renato Russo, da Legião Urbana, do Capital Inicial, das bandas de Brasília do rock brazuca do início da década de 1980, do presidente João Batista Figueiredo, do mineiro Tancredo Neves - o melhor presidente que o Brasil não teve - , do Sarney e seu bigode, do arquiteto Oscar Niemeyer - passou dos 100 anos de vida ele -, do Plano Piloto - que eu não sabia bem o que era -, da estátua da foice - Memorial JK -, do edifício com duas torres e duas bacias de cada lado - uma delas virada (o prédio do Congresso Nacional, o mais legal de todos), do Palácio do Alvorada, do Palácio do Itamaraty, do Gama e do Brasiliense, da canção Faroeste Caboclo - que fala do Planalto Central, de Brasília, do Distrito Federal, da Asa Norte, da Ceilândia, do Lote 14 e das "cidades-satélite" de Planaltina e Taguatinga -, da brasília (*1) do seu Darci - pai do Baldo -, da brasília amarela dos saudosos Mamonas Assassinas e da Sandra Fayad, poeta lá de Brasília que eu conheci no site Recanto das Letras e da qual tenho um livro legal aqui em casa - Animais que Plantam Gente, publicado em 2008, de crônicas (uma delas, intitulada "Sultão, o meu cão bandido", é muito boa). Inclusive compartilhei um vídeo na linha do tempo do meu Facebook hoje, com a Sandra declamando poema seu em homenagem à cidade.

Já que falei em Juscelino e em Niemeyer, não poderia deixar de mencionar o nome do arquiteto Lúcio Costa, que fez o tal Plano Piloto em 1956, que ele imaginou como sendo uma cruz, mas que o pessoal acha até hoje mais parecido com um avião, olhando-o de cima. Também o do engenheiro estrutural Joaquim Cardozo, co-autor do planejamento da cidade junto com Oscar e Lúcio. O que mais dizer? Que Brasília é a terceira cidade mais rica do Brasil, a capital mais desigual e possuidora do maior PIB per capita, além de contar hoje uma população de três milhões de habitantes - seu planejamento original previa 500 mil em 2000 -, o que a torna a terceira cidade mais populosa do país e a quinta maior concentração populacional - levando-se em conta as regiões metropolitanas.

Então chega, né. Já está dado o recado. Parabéns Brasília.


(*1) - Brasília era um modelo de automóvel produzido pela Volkswagen brasileira entre 1973 e 1982, cujo nome homenageava a capital federal.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 21/04/2020
Alterado em 21/04/2020


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