João Adolfo Guerreiro

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Bibliotecas

Quem aí frequenta biblioteca pública? Quem possui biblioteca particular em casa? A propósito, quem ainda lê livro em versão física, tradicional? Aliás, quem lê livros em versão digital? Afinal, quem ainda lê livros?

O livro, em seu formato físico, creio, vai permanecer, por sua praticidade de não exigir energia para ser acessado e por não forçar as vistas. Embora mais caro e em edições mais restritas, existirá em nossa realidade concreta  histórico-social por um bom tempo. Agora, as bibliotecas particulares tendem a se tornar rediduais, enquanto que os periódicos impressos sumirão. Como ocupam muito espaço e exigem organização para o acesso aos conteúdos, vão ser "cultivadas" apenas por pouquíssimos colecionadores, apreciadores incontestes do querido objeto táctil tradicional. No mais, serão superadas pela revolução tecnológica digital.

Esse processo social, econômico, cultural e tecnológico pode ser percebido pela crise do mercado editorial, que afeta tanto livrarias quanto editoras dedicadas ao mercado físico e presencial em tempos em que urge, pela manutenção da vida, o isolamento social. Com a retração econômica que a atual pandemia está provocando, o mundo dos livros possivelmente sofrerá um baque grande, eis que os setores em dificuldade sofrerão mais que todos os outros. Chega a ser irônico o vírus afetar grave e concomitantemente as pessoas mais frágeis, dos grupos de risco, bem como os segmentos econômicos em processo de readaptação estrutural ao mercado.

Os novos tempos e suas circunstâncias superando pessoas e negócios em ritmo acelerado: nos primeiros, interrompendo o ciclo normal da vida abruptamente, em grande escala, de toda uma geração hoje em idade provecta; nos segundos, tornando sua reestruturação uma queda livre sem paraquedas. E, também nesse ponto, o sarcasmo da vida a agir sobre a sociedade, os mais novos não são afetados, pois são seres do tempo novo, da leitura digital, por um lado, e, por outro, com o corpo físico, na absoluta maioria dos casos, blindado pelo vigor e plenitude. Podem até se dar o luxo de permanecerem alheios a tudo isso, por serem situações que não fazem parte de seu mundo e que não lhes interessam e tampouco atingem de fato.

E tudo isso alterará a cultura da classe média referente a constituição de biblioitecas particulares no ambiente doméstico, como essa que vemos na foto, do saudoso escritor gaúcho Moacyr Scliar, que esteve aqui por Charqueadas em outubro de 2006 palestrando no Sarau Literário realizado no Solar Shopping, esbanjando simplicidade e simpatia. As pessoas e as bibliotecas passarão, mas os livros ficarão, até porque cada pessoa é um livro humano carregando sua história de vida com experiências e aprendizados. Vi isso quando a Biblioteca Pública Municipal Profª Vera Gauss, em Charqueadas, por iniciativa da bibliotecária Carina Pahim, realizou o projeto Biblioteca Humana, que consistia justamente nesse fazer da pessoa um livro humano a revelar oralmente sua vivência ao leitor-ouvinte interessado. Livros físicos, enquanto existirem, bibliotecas públicas hão de existir e bibliotecários e faculdades de biblioteconomia idem. Quiçá.

Voltando as bibliotecas particulares, recordo que trabalhei em Santo Antônio da Patruha - a cidade com duas rodoviárias - e certa feita chegou lá no serviço uma doação de livros da biblioteca de um senhor que falecera. Gente, e que vasto acervo ele possuiu! Ela era especializada em direito, mas seu títulos qualificados se estendiam por todas as áreas do conhecimento científico, da tecnologia e da literatura, consistindo em obras clássicas e fundamentais. Que homem excepcionalmente culto ele deveria ser. E todos os livros possuíam um carimbo com seu nome e assinatura. No período em que lá fiquei devorei muitas coisas, lembro bem de uns livros sobre a participação da marinha brasileira nas duas guerras mundiais. Claro que eu pensei em passar a mão em muito daquilo, mas não o fiz. Fui embora e, depois, soube por colegas que o local fechou e todas aquelas preciosidades ficaram lá, atiradas, para os ratos e para pessoas que as recolheram para vender como papel velho. Acreditam?

É a vida. Todavia, enquanto o sol entrar pelas janelas nas tardes de outono e iluminar as prateleiras de cada biblioteca ainda existente, o mundo prosseguirá sendo um lugar belo e prazeroso para quem nasceu no século XX.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 15/04/2020
Alterado em 15/04/2020


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