João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Imagem - aquarela de James Tissot (1836 - 1902)

Ela fugiu num Domingo de Ramos

Há cerca de mil, novecentos e noventa e três (*) anos Jesus entrava em Jerusalém montado num jumento, sendo ovacionado pelo povo, que o saudou com ramos às mãos e jogando seus mantos ao chão por onde ele passava. Exatos mil, cento e oitenta e cinco anos após, Clara Bernardino fugia da casa dos pais para se juntar a Francisco de Bernardone, na noite de um Domingo de Ramos para a segunda-feira.

Ela, uma jovem loura e de olhos azuis de 18 anos, oriunda de uma família abastada; ele, aos 30 anos, já tinha muita história para contar em sua vida... Filho de um rico italiano vendedor de tecidos, viajava pela Europa com o pai desde novo, principalmente para a França, daí o nome de Francisco. Vivia para os prazeres e alegrias da vida, menestrel de canções de amor. Mas também era soldado. Em 1202, numa batalha em defesa de sua cidade, foi capturado e mantido prisioneiro por cinco meses. Seu pai o resgatou.

Alguns tempo depois, aos 24 anos, seguiu para nova luta em seu cavalo, com lança, espada e armadura. A pequena Clara, aos 12 anos, viu a cena e ficou impressionada com o galante jovem da sociedade local partindo pra guerra. Só que, para surpresa de todos, poucos dias depois lá estava ele de volta, sem armadura e sem nada, triste e calado. E não foram apenas essas as mudanças.

Deu todos seus pertences e começou a andar com os mendigos e a pedir esmolas, para vergonha dos pais. A gota d'água foi quando pegou os melhores tecidos da loja da família, vendeu-os e doou o dinheiro para o padre restaurar a igreja local. O pai, por isso, em dezembro de 1206, fez uma queixa pública contra ele por roubo em frente ao bispo, na praça central da cidade de Assis, pedindo restituição. Francisco não só devolveu como, mais uma vez surpreendendo a todos, tirou suas roupas e as deu ao pai, dizendo que iria viver como Cristo e dedicar sua vida aos pobres e abandonados. Clara estava entre o povo e ficou ainda mais curiosa em conhecer aquele rapaz que se despojara de tudo em nome de uma mudança de vida baseada na fé e no amor ao próximo, buscando imitar a Jesus.

Assim, seis anos mais adiante, naquela noite de Domingo de Ramos, ao sair de casa, já tinha claro para si que Francisco era o líder espiritual que queria seguir, também ela deixando o fausto da vida que levava em favor de uma existência rigorosa de privações, pobreza e de prática da caridade e da oração. Clara Bernardino nunca mais voltou a casa dos pais, seduzida pela oratória do religioso que falava com emoção sobre a dedicação ao próximo e ao abandono das paixões e privilégios terrenos, realizando totalmente a obra do Senhor. Tornou-se Clara de Assis, seguidora de Francisco de Assis.

A partir daqui é a conhecida história de São Francisco e Santa Clara, religiosos que, ao retomarem o modelo de vida de Jesus conforme os evangelhos, reformaram profundamente a igreja de sua época, servindo como expressivo modelo e referência até os dias de hoje, onde ainda são muito populares.

Francisco morreu aos 44 anos; Clara, aos 60. Os dois foram canonizados em processos muito rápidos, apenas dois anos após o falecimento. As ordens dos franciscanos e das clarissas mantém a forma despojada proposta e praticada em vida por seus líderes, mantendo vivo seu legado. E tudo começou, assim como na Semana Santa original, num Domingo de Ramos, quando a jovem loura resolveu mudar de vida, inspirada em Jesus, seguindo Francisco.

Para finalizar, só uma curiosidade digna de nota: duas irmãs de Clara, Inês e Beatriz, igualmente se juntaram ao seu grupo religioso, com algumas amigas. Entretanto, o mais inusitado foi que sua mãe, Hortolândia, anos mais tarde, e também num Domingo de Ramos, uniu-se às filhas na vida religiosa.


Nota:
(*) -  4 de abril de 27. Datação conforme: PAGLIARIN, Juanribe, O evangelho reunido. São Paulo: Bless Press Editora, 2008. 

Fonte:
PADOAN, Paolo. Santa Clara de Assis. São Paulo: Paulinas, 2008.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 06/04/2020
Alterado em 06/04/2020


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