João Adolfo Guerreiro

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Foto - Roilane Rocha

SANTO AMARO E SUA FESTA VALEM A VISITA

Ao espocar de foguetes e com os sinos da igreja batendo rápido, os olhos abrem e se chocam com a luz do sol que entra pela janela do quarto. O cérebro se ativa rápido: Ué, já são nove e meia? A missa, com o arcebispo Jaime Spengler, começa às dez e o sino avisa, como de costume, meia hora antes.

Olhamos na programação da Festa de Santo Amaro: é a alvorada festiva das seis horas. Ainda bem que não fomos ao baile na noite anterior, preferimos recarregar as baterias para hoje, 15 de janeiro, dia de Santo Amaro e ponto alto da 233ª festa em louvor a esse na comunidade que leva o seu nome.

Santo Amaro do Sul, distrito de General Câmara desde 1938, quando Getúlio Vargas tranformou o distrito da Margem em cidade após a chegada do Arsenal de Guerra, invertendo a hierarquia entre o santo e o general, faz parte da história do Rio Grande do Sul. Na entrada da localidade está a placa informando que se trata da "vila mais açoriana do Brasil". Pudera, filme já foi rodado aqui: Um Certo Capitão Rodrigo, em 1971, baseado na obra de Érico Veríssimo e dirigido pelo saudoso e oscarizado Anselmo Duarte. Sua famosa igreja é de 1787, a quarta mais antiga do estado, posterior apenas a de Rio Grande, a de Viamão e de outra que agora pela manhã não recordo e que não vou tirar o gosto de vocês pesquisarem no Google por conta própria.

Para quem está no segundo andar da Pousada e Restaurante Coqueiro dá para ver a Barragem Amarólopis e o rio no horizonte próximo, com o sol, à esquerda, já queimando os olhos. Uma bela vista da região do outro lado do Jacuí, onde já é Butiá que, dizem por aqui, fica a uns 16 quilômetros pela antiga estrada aberta durante a construção da barragem.

Ontem, além do baile, aconteceu a procissão luminosa, às 20 horas. A concentração e saída foi na bifurcação da entrada de Santo Amaro, em frente a figueira do Nelson. O som das rezas conduzidas pelo padre Bruno e a temperatura agradavelmente amena nesse tórrido verão davam uma aura particular à caminhada, com a beleza do por do sol emoldurando a copa das árvores já escurecidas. Já na igreja, lotada, os devotos aguardavam o início da missa. Embora o frontal imponentre, a casa religiosa não é grande em seu corpo, abrigando umas 150 pessoas sentadas. O padre conduz a última missa da novena de forma vigorosa e firme. Na homilia, cujo tema era "Santo Amaro e as promessas de seus devotos", é breve e objetivo: não é o santo, mas sim Deus quem opera os milagres, sendo o tempo Dele diferente do nosso. Por isso, só nos concede os pedidos quando precisamos. Não há uma relação de troca entre o fiel e Deus, o primeiro prometendo isso e o segundo dando aquilo, motivo pelo qual a fé deve permanecer inalterada, durante o ano inteiro, seja atendido ou não o pedido. Boas palavras, gostei.

Na saída da igreja, os presentes circulavam pelas barracas de comes, bebes e venda de produtos diversos. Uma demonstração de danças tipicas açorianas atraía a atenção de boa parte do público. Quem quiser vir agora pela manhã a Santo Amaro ainda pega a mateada ao ar livre na praça, onde há uma fonte de água quente com temperatura regulada ao gosto do gaúcho. Ao meio-dia e trinta acontecerá um paseio do barco Cisne Branco que virá especialmente para a festa, mas lamento informar que, desde ontem à tarde, acabaram os ingressos. Contudo, ainda terá o almoço, a festa popular animada pela Banda Presença a partir das 15 horas, o leilão de animais às 17 horas e a procissão às 18 horas. Além do mais, a Casa de Cultura, em frente aos monumentos do forte e da caravela, está bem ajeitada e com ítens históricos interessantes para se ver. Para quem está pelas cidades vizinhas da Região Carbonífera e tem o dia livre é só uma esticadinha até Santo Amaro para conferir a festa.

Em relação a Charqueadas, onde resido, são cerca de 40 quilômetros, meia hora de carro. Mesma região, mesma biodiversidade, mesmo rio, todavia parece um estado diferente. Santo Amaro, na comparação, tem outro ritmo e outra cor, com seu estilo antigo e lento e balneário ativo, permitindo a interação com o rio. Um lugar tranquilo e bonito, onde a vida acontece com identidade própria, como podemos observar na particularidade da árvore que nasceu e cresce na parede da frente da casa açoriana em ruínas (foto). A vida se renova e segue, sempre, em todo o planeta, e também nessa localidade que abriga uma interessante festa religiosa bicentenária. Vale a gasolina conferir.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 15/01/2020
Alterado em 15/01/2020


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