João Adolfo Guerreiro

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Textos


Cobradores 1x0 Prefeitura em tempos de DET

“Malditas” professoras e “malditos” cobradores de ônibus, insistem em não “morrer na contramão atrapalhando o tráfego”, como diz a canção do Chico. As primeiras, nas mãos do governador Eduardo Leite; os segundos, nas do prefeito Nelson Marchezan. E, esses últimos, de forma literal, pois o projeto que tramita na Câmara de Vereadores de Porto Alegre propõe a extinção gradual da categoria.

Enquanto que o placar, no caso do magistério estadual, está em 1x1 com o governo estadual, na capital temos Cobradores 1x0 Prefeitura. Leite aprovou o PLC que tratava da previdência dos servidores ainda no primeiro tempo, indicando uma provável virada de jogo na segunda etapa, em janeiro, na Assembléia Legislativa; Marchezan viu o projeto referente aos cobradores não ser votado agora em dezembro e ficar para fevereiro, quiçá para apenas quando o carnaval passar. Todavia, esse escore permanece em aberto.

Os cobradores de ônibus são vítimas de um fenômeno sobre o qual venho escrevendo aqui no Portal em 2019, o desemprego estrutural tecnológico – DET. Ele significa, basicamente, a redução sem volta do número de empregos no mercado de trabalho, inexorável nas economias em geral devido aos avanços da tecnologia no processo produtivo e de prestação de serviços, no campo e na cidade. Tal fenômeno é aditivado em escala geométrica nos dias atuais em virtude da revolução digital e da chamada indústria 4.0. Aqui em nossa região vemos isso ocorrer, para citar um caso de mesma natureza, com os cobradores do Expresso Vitória, que se tornaram obsoletos após a implantação da bilhetagem eletrônica, o cartão Pra Ti.

Sim, é, incontestavelmente, o futuro. Mas não é um futuro “pra ti”, se olharmos a situação pelo ponto de vista dos cobradores e das outras categorias sobre as quais paulatinamente se estende o DET, como é também a sina das professoras, acossadas pela redução de postos via o ensino à distancia - EAD. Onde essa gente irá trabalhar? Onde vocês irão trabalhar? Onde todos nós iremos trabalhar? Pois, vejam, se fala, em termos de DET, em redução de empregos, não em substituição destes por outras vagas em diferentes setores. Sim, o mercado de trabalho está encolhendo, a força de trabalho humano é cada vez menos necessária. Isso está por todo o lado. O caso dos estudantes universitários: no Brasil o ensino tecnológico e superior esteve em expansão nas últimas décadas, mas já se fala em “geração perdida”, pois esses, em índice considerável e dramático, não encontram ocupação em suas áreas de formação, engrossando o time dos desempregados. Quando a crise conjuntural em que estamos passar, eles poderão perder as vagas para os mais novos que estão chegando, devido ao encolhimento causado pelo DET, ou seja, boa parte sairão do mercado sem mesmo ter entrado nele.

As compras pela internet estão reduzindo postos no comércio, eis que o mercado virtual diminui o tamanho do mercado físico de lojas, com seus prédios cheios de vendedores, substituindo-os. Até que ponto chegará essa substituição? Na indústria 4.0, a inteligência artificial é utilizada até no comando e gerenciamento da produção. No campo, a coisa está parecida, com aviários praticamente automatizados. E por aí vai. Só menciono os exemplos acima, mas vocês podem observar o andar dessa carruagem desde o ponto da estrada em que se encontram, se prestarem bem a atenção. Vai ver inclusive que ela está esperando a sua profissão embarcar e tu ainda nem se deu conta disso.

Não é por outra razão que não essa que pensadores como Yuval Noah Harari escrevem que o grande drama da sociedade para adiante nesse século, por volta de 2050, será o das pessoas “inúteis”, ou seja, aquelas que não possuirão utilidade alguma para a economia. O que se fará com essa massa estruturalmente desempregada? Como ela participará do mercado de consumo? Como sobreviverá? E, da mesma forma, visando responder tais perguntas, lideranças religiosas mundiais como o papa Francisco, ao lado de ganhadores do Nobel como o economista e banqueiro Muhammad Yunus e economista e filósofo de Harward Amarthya Sen, propõe um encontro visando debater a via de uma economia solidária e humana, justamente preocupado com o destino das pessoas e do meio ambiente ante o futuro que se avizinha inóspito para esses.

Os cobradores de ônibus de Porto Alegre são apenas a bola da vez, mas essa preocupação é de todos, é da sociedade. Deveria de ser, pelo menos. Ou corremos o risco de perdermos de goleada.
 
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 27/12/2019
Alterado em 27/12/2019


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