João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Carta para Alana
Sobre o livro da Maitê Proença

Charqueadas, 23 de abril de 2016


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Oi Alana.
Li o livro que tu indicou no Facebook: Todo Vícios, da Maitê Proença. Estou te escrevendo para passar impressões sobre o mesmo, que foi o que tu me pediu ao responder meu comentário na tua postagem.

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- Ué João, lendo livro da Maitê Proença?!?!
- Sim. Que que tem?
- Puxa, cara, isso é livro de coxinha! Ela é coxinha.
- Bom, é claro. Mas é literatura. Na verdade tô lendo por indicação de uma amiga do Face.
- Amiga do Face? "Facefriend"?
- É. Conheço ela há tempos, num site de literatura onde eu escrevo, o Recanto das Letras.
- Ããããhhh. Maitê Proença. É da onde ela? O que ela faz?
- É médica.
- Médica! Esse pessoal é tudo coxinha, são tudo antipetista de classe média. Quase tudo. Mora onde?
Me deu um branco.
- Bah Mário, não lembro, bicho. Sei lá... São Paulo... Brasília... Parece uma dessas, não lembro bem.
- Brasília! São Paulo! Puxa cara, só lugar de maioria coxinha.
- Bah cara, nem sei o que a guria é, nem lembro dela publicar coisa de política assim, ostensivamente. E bicho, eu leio Lobão, que é bem ideológico, porque não ler um romance da Maitê?
- Bah João, tu lê até o Constantino e o Olavo. Eu não leio esses caras. tem que ter coragem. E estômago!
- Eu lia o Reinaldo Azevedo no tempo da Primeira Leitura, que era uma revista legal, mesmo sendo de centro direita. Tenho umas lá em casa, ainda. A gente tem de entender com o que está lidando.

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O Mário é uma amizade que aprecio, Alana. Temos a mesma idade, somos da mesma cidade, trabalhamos no mesmo serviço e temos uma visão de mundo semelhante. Somos de esquerda, militamos juntos no PT nos anos 1990. Hoje ele tá filiado no PCdoB. Eu não faço mais política partidária há anos, voto basicamente no PSol, que é a minha referência hoje, mas não sou filiado nem militante. Nem quero. Passou essa fase, estou noutra, independente, escrevendo pra jornal, essas coisas. Um cara democrático e de esquerda flanando no Ministério do Ar...

O Mário é um cara com quem eu gosto de conversar, principalmente de 2013 para cá, nesses tempos de esfervescência política e social que o Brasil atravessa. E o Mário não é um cara sectário como a informalidade de nossa conversa possa sugerir. Tem opinião forte, mas não é a versão vermelha de um "BolsomiCo", por exemplo.

O diálogo com que inicio a carta pra ti é para ilustrar que a leitura de um livro sempre pode ser uma experiência inusitada e inesperada, dependendo do contexto social, político, histórico e geográfico em que estamos situados e, como o Brasil está radicalmente polarizada na conjuntura, tudo acaba, às vezes, por ser medido por essa régua, inclusive a literatura e, principalmente, os escritores. Eu mesmo, no comentário à tua postagem, assim procedi ao falar do lance dela como "pensionista", lembra? Mas daí não foi um lance político ideológico até, foi mais pé atrás mesmo. Bom, creio que tu está sacando o que eu quero dizer.

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Bom, Alana, vamos ao livro, né! Eh eh eh eh eh.
Li ele aos poucos. É um livro curto, dá pra ler em dois dias, até num. Mas como tenho de escrever para jornal e isso me obriga a uma disciplina de ler jornais, revistas, sites e livros de determinada área ou assunto (atualmente a conjuntura política brasileira), fui aos poucos. E foi uma experiência legal. Com certeza nunca teria lido um livro dela se não fosse a tua indicação. Como gosto do que tu escreve, achei que valia a pena, como escrevi no Face. Tenho por hábito ler livros indicados por pessoas as quais aprecio o texto. Conheci o Zafon, uma de minhas paixões literárias, assim. A Liane, jornalista de um semanário daqui, uma vez me indicou A Sombra do Vento. Que livro! Já leu? É excelente.

E sabia que eu nunca li, por exemplo, um romance do Chico Buarque? Pudera, nunca ninguém me indicou para ler e eu, como fala a personagem Stella (que cita Chico no livro), tenho aquele sentimento do mundo artístico, que “não aprecia os que migram de um nicho para outro, e o público também não gosta de quem os abandona” (p. 34). Tenho isso em relação ao Chico, ele é uma das minhas referências como compositor da MPB e depois que foi para a literatura não produziu mais aquelas canções geniais. Então eu nunca me animei a ler um livro dele. Mas, agora, li um livro da Maitê, por indicação, e ela nunca foi uma musas ou uma atriz que me inspirasse. Aliás, atores não me inspiram, geralmente. Diretores e autores sim.

Não vou comprar todos os livros da Maitê (aliás, porque você leu esse livro?), mas, talvez, até compre um outro se o ver e ele me interessar, pois ela é uma boa escritora. Não adorei Todo Vícios, ele não vai para a cabeceira e tampouco para um lugar privilegiado em minha biblioteca, mas também não vai para uma caixa e nem para o lixo. Vai para a estante dos livros que não são ruins e que me lembram histórias e pessoas. E Todo Vícios vai me lembrar esse período histórico, esse momento particular e também, sem qualquer ligação com o motivo anterior, você, "Alana, aquela moça morena, de vestido vermelho e com uma flor, que nunca escrevia à toa no Recanto".

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Foi uma boa indicação essa tua. Maitê não é uma escritora ruim, mesmo que Todo Vícios, na minha opinião (que não é a de um crítico literário e tampouco de alguém que pretenda sê-lo), não seja um grande romance. Tampouco é um livro medíocre. É uma obra boa de ser lida, dependendo do gosto do cliente, como alguns vendedores dizem.

Uma coisa que gostei em Todo Vícios foram as "tiradas" dele, ou seja, aqueles conselhos e sabedorias que o autor certamente traz de sua vivência e que os coloca no livro, por sua voz ou na das personagens. Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas é genial nisso, pela voz da personagem Riobaldo Tatarana. Cheguei a anotar quase 300 tiradas desse livro, num caderno. Em Todo Vícios, foram 25. Coisas como a da página 71: "Meu pai ensinou, Aprenda a ouvir, filha. As pessoas gostam mais de falar do que de escutar. Por mais interessante que pareça o que tem a dizer, aprenda a ficar calada se quiser que gostem de você (e que a escutem um dia, ele deve ter pensado...)".

Então dá pra ver que a Maitê não é uma mera contadora de causos, ela pensa e aprende com a vida, deve ser uma pessoa interessante, além de bonita e, talvez, coxinha, eh eh eh eh. Sempre leio um livro refletindo sobre o autor a partir do texto. E a Maitê, para mim, não será apenas mais uma atriz que escreve, mas uma escritora.

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Um outro lance no livro é que ele retrata as personagens bem num padrão social de classe média alta. Stella, atriz famosa, na casa dos quarenta anos, linda, que está dando um tempo como escultora, cidadã do mundo, poliglota, culta, socialmente ativa e bem relacionada, dona de imóveis legais, divorciada, namora um publicitário problemático numa relação errática recheada de contatos por mensagens de celular, ausências físicas e sexo insatisfatório. De vez em quando eles se aventuram "antropologicamente" pela periferia, como na Cracolândia ou no Mercado Central de São Paulo, onde "por conta da mostra de meus vasos e do recente retorno aos palcos eu andava muito visível em programas de TV e revistas; os passantes se excitavam com a minha presença e o ar de surpresa em seus rostos nos divertia aos baldes" (p.66).

Mais adiante, na rua 25 de março, "mais olhos e ais, um sujeito, de tão boquiaberto, tropeçou e caiu, Ganha um prêmio quem apontar a primeira pessoa magra, uma loura de verdade, qualquer um acima de 1,70, uma linda, um lindo" (p.66). Realmente, a periferia, aos olhos dos cidadãos do mundo, parece uma gente bem pouco interessante. Pelo menos é a visão da personagem Stella, reafirmada por seu namorado João na página 108, ao relatar por mensagem de celular uma viagem: "Conversas furadas, mistura de interior com capital, provincianismo orgulhoso, criminalidade genuína e endêmica, mulheres mais bonitas que aquelas da 25 de março, mas que não chegam a seus pés".
(Quando mostrei essa parte pro Mário, que era justamente a que eu estava lendo quando se deu nosso diálogo, ele falou: "Não disse, não disse".)

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Na parte emocional da relação entre as personagens principais, achei tudo parecendo aquela coisa de novela, onde as pessoas são sempre cheias de problemas e nunca tem uma vida sentimental normal, estabilizada. Puxa vida, não existe gente normal nesse mundo, com famílias estruturadas, que sejam casadas numa boa, que namorem numa boa, sem esse clima de guerra sentimental e desencontros bem típico de novelas de TV? Não vou conferir no livro agora, mas se não me engano Stella já tem uns quarenta e alguma coisa e João é um cara de cinquenta e poucos. Nessa idade, que é a minha faixa etária, as pessoas já não deviam saber algo da vida e estar numa relação estável? A maioria das pessoas que eu conheço já está assim, já amadureceu suficiente para entender certas coisas referentes ao relacionamento amoroso humano para, nessa idade, não fazer como o macaco novo e ficar enfiando a mão em cumbucas, ainda mais suspeitas.

Aliás, o casal me pareceu um pouco adolescente nas rusgas, ainda mais por ser aquele lance de troca de mensagens por celular direto e reto. Umas brigas assim nada a ver em se tratando de pessoas que já não cozinham na primeira fervura, já na ante sala da terceira idade. Longos "beicinhos" e inseguranças virtuais. Tudo bem, João é um cara cheio de problemas, está em depressão, mas é uma relação maluca essa, de qualquer jeito. Tá, sei que existe esse tipo de coisa, que é a história das personagens e que foi o que a autora decidiu contar e isso é uma escolha que cabe só a ela tomar, entretanto eu fico pensando sobre esse dramalhão brasileiro que se supõe mais sofisticado que o dramalhão mexicano, só porque o último cai na pieguice e o primeiro na linguagem hiper realista contemporânea. Todavia, o dramalhão é sempre o mesmo e (aproveitando os 400 anos da morte de Shakespeare, hoje) muito aquém de Romeu e Julieta.

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Apesar disso, o livro da Maitê não é de se jogar fora, não é má literatura. Ela escreve bem. E não estou dizendo isso só para ser simpático contigo, Alana, por tu ter indicado o livro e gostado dele. Achei bom o texto, mesmo com a história sendo chata (aquelas relações tipo "não ata nem croata", como diziam os caras do Casseta & Planeta), pois suas "tiradas" e a possibilidade de uma interpretação sociológica do mesmo o tornaram interessante pra mim. Numa palavra: as reflexões da autora são interessantes.

E, mesmo não curtindo a história da relação abordada, gostei como a autora desenvolveu psicologicamente as personagens, seus sentimentos, reflexões, anseios, fragilidades, medos, vacilos, tudo aquilo que está por trás da pose e do não-dito das pessoas em relações amorosas. Stella, principalmente, pareceu-me muito frágil e com baixa auto-estima, uma escultura grega oca por dentro; um filme mudo, só imagem. Deu para sacar bem eles, a ponto de poder tecer as impressões que fiz na arte anterior dessa carta. O lance de alterar a pessoa do narrador principal, a personagem Stella, e até mesmo de colocar a narração na voz da personagem João também foi legal, apesar de que as desse último, sei lá, não me pareceram reflexões tão masculinas assim, eis que, a partir da minha vivência, vejo o meu sexo como mais objetivo nessa questão, tipo tô a fim da mulher e encaro ou não estou e pronto. Todavia, o cara estava deprimido e confesso que eu não tenho experiência com gente assim.

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Bom, Alana, era isso.
Foi o jeito que eu li, senti, vivi e pensei Todo Vícios.
Valeu a indicação.
Um abração.
João Adolfo
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 23/04/2016
Alterado em 24/04/2016
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