João Adolfo Guerreiro

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Textos



Para ler Bukowski

O início do verão, para quem consegue tirar férias e ir numa praia, é o momento propício para furungar alguns autores assim, sem compromisso algum além do prazer da leitura. Charles Bukowski (1920 – 1994) é um autor muito legal para se conhecer melhor.

Nascido na Alemanha, filho de um soldado americano e de uma alemã, aos três anos foi com os pais para os Estados Unidos, fixando-se na cidade de Los Angeles, onde permaneceu a maior parte de sua vida e produziu sua literatura. Escritor contemporâneo à contracultura dos anos 1960 e tendo publicado em jornais alternativos (principalmente o Open City, com a coluna “Notas de um velho safado”), sua obra é influente e muito lida, presente em nossos dias tanto quanto Bob Dilan, Led Zeppelin, Pink Floyd, Beatles e Rolling Stones ainda o são, na música.

Mas Bukowski não era fã de rock, pois já era um cinqüentão quando começou a ter repercussão na literatura e costumava escrever ouvindo música clássica. Todavia, não era uma obra acadêmica ou erudita, mas sim um retrato do avesso do “sonho americano”, trazendo a realidade das classes populares e excluídas economicamente por dentro, visto que foi um boêmio e um trabalhador braçal. Seus textos falam de bebedeiras, prostituição, brigas, violência, crimes, exploração trabalhista e das misérias e pequenezas da vida humana nas grandes cidades numa linguagem crua, realista e direta, retratando sem rodeios o cotidiano e a fala das ruas. Muitas vezes, por isso, é mencionado o caráter obsceno de sua obra, recheada de palavrões que, na verdade, apenas correspondem à literalidade do conteúdo que abordam.

Bukowski era basicamente um poeta, a maior parte do que escreveu, cerca de trinta livros, era poesia. Mas seus contos, crônicas e romances são uma parte de grande repercussão de sua obra, principalmente aqui no Brasil, onde seus textos em prosa foram traduzidos primeiramente e em maior número.

Dos seus seis romances publicados, cinco retratam a vida do seu alter ego Henry Chinaski, daí o caráter fortemente autobiográfico de sua literatura. Para se fazer uma leitura cronológica do personagem, o ideal é seguir um roteiro diferente daquele do ano de publicação dos livros: Misto-quente (1982) aborda a infância e a juventude de Chinaski/Bukowski; Factótum (1975) fala do período da IIª Guerra, quando, rejeitado para o serviço militar, trabalha em vários empregos temporários; Cartas na rua (1971) é baseado nos treze anos em que trabalhou nos Correios; Mulheres (1978) trata dos relacionamentos amorosos de Chinaski, já um escritor famoso, num texto quase pornográfico; Hollywood (1988) é sobre o convite que o autor recebe para escrever um roteiro de cinema; Pulp (1994), publicado pouco antes de sua morte (lutava contra uma leucemia), traz a história de um detetive envolto em situações insólitas, numa referência à literatura “pulp”, como o próprio título anuncia.

Outra face importante de sua obra foram os contos e crônicas, que podem ser encontradas em livros como Notas de um velho safado (1969), Ao sul de lugar nenhum (1973) e o póstumo O capitão saiu parra o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio (1998). O estilo engraçado do autor, de um humor irônico e corrosivo, aparece bem melhor nesses textos mais curtos, dentre os quais o “O capitão...” é o meu preferido. Nele Bukowski faz menções críticas jocosas sobre outros escritores, do passado e atuais, como na última crônica do livro, “27/02/93 00:56”, em que escreve: “Lembro de uma carta longa e furiosa que recebi de um cara que me disse que eu não tinha o direito de dizer que não gostava de Shakespeare. Muitos jovens iam acreditar em mim e não se dariam ao trabalho de ler Shakespeare. Eu não tinha o direito de tomar essa posição. E assim por diante. Não respondi na época. Mas vou responder agora. Vá se f0#&%, colega. Eu não gosto também de Tolstói!”

Texto publicado nas versões impressa e online na seção de Opinião do Jornal Portal de Notícias:http://www.portaldenoticias.com.br
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 23/01/2016
Alterado em 23/01/2016


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