João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Meu Diário
09/05/2020 13h10
50 dias de isolamento social

Desde o dia 21 de março cumprindo o isolamento social; 24 de março, 46 dias atrás, foi o último em que saí pra rua, desde lá, tudo o que precisou se fazer foi online ou tele. Cinquenta dias. E parece que no Brasil, com o inverno iniciando e o lamentável e absurdo governo federal atrapalhando os governadores e prefeitos de capital, o pior ainda não veio.

Espero que nunca venha, embora os números mostrem um crescimento paulatino e, em alguns estados, como SP, RJ, CE, PE, AM e PA, a coisa esteja dramática. Tudo vai depender da sociedade decidir se proteger e de como a questão da sobrevivência das pessoas se dará com alimentação, água, luz e remédios, ou seja, o essencial. De fome ninguém morrerá no curto prazo, só pela Covid-19. Mas tem políticos e empresários pressionando pela volta à "normalidade" (!?). Querem "economia e morte", esses, mais preocupados que estão com a morte de CNPJs que podem ser recuperados do que com CPFs irrecuperáveis se a morte lhes atingir.

Em casa tudo como sempre. Perfeita a convivência com a esposa. Uns quatro dias atrás ela pegou 150 reias de seu pai em notas de 50, de uma dívida que ele tem para com ela, e esqueceu de lavar as mãos. Uma barra, pois a situação na casa dos meus sogros continua do mesmo jeito que já falei nas postagens anteriores aqui nesse Diário. Mas não ficou muito tempo assim, diz que lavou as mãos uns 15 ou vinte minutos depois, quando foi comer uma laranja. Torçamos pelo melhor, né. Erros acontecerão, meus e dela, e a verdade é que não somos vítimas ou culpados de algo que é muito maior do que a gente e de que todas as pessoas deste mundo. O grande inconveniente disso é que teremos de passar, novamente, uns dias dormindo separados, eu na sala. Uma bosta. No mais, tudo ok, sem dramas, né.

Amanhã é dia das mães e a Joana virá aqui em casa. Vai ser estranho, pois iremos seguir rigidamente os protoclos de distanciamento social. Faremos um almoço no pátio - churrasquinho com espetinhos, ela numa ponta da mesa, nós na outra. Ela não poderá ir no nosso WC. Será um encontro de duas, três horas no máximo. É o que dá, tem de ser assim. Ela esteve aqui nove dias atrás, numa quinta-feira - 30 de abril, quando o Pedro, meu cunhado mais novo, apareceu na casa dos meus sogros, com a esposa e o filho, e também os vimos. A Joana teve de sair de casa e aproveitou para passar. Sentamos na área da frente. Comprou umas coisas pra gente no supermercado Bonato, que não tem no COPAC - onde compramos online e recebemos por tele-entrega. Vai ser muito bom ver nossa filha. Ontem compramos umas coisas no COPAC para recebê-la bem.

Na quinta-feira passada, dia 7 de maio, desmontei a máquina de lavar antiga que estava na área. Deu um trabalhinho, deixei só a carcaça de metal com a tampa de vidro, que agora serve para colocar dentro as compras quando chegam, a fim de diminuir a área do piso a ser rigorosamente lavada após a higienização das mesmas.

Na terça-feira, dia 28 de abril, fizemos rancho na COPAC. Dá um trabalhão higienizar todos os produtos com água e sabão, mas bah. A reorganização da biblioteca já está concluída. No mais tudo ok, com as rotinas: varrer e passar um pano no piso da casa, limpar as calçadas do pátio, recolher coco dos cães, alimentar cães e gatos, lavar a louça, escrever para o Portal, ler na biblioteca, acessar a internet e olhar o Face - que não acesso nos fins de semana, a fim de manter a saúde mental. Minha esposa faz a comida, arruma a mesa, lava e estende as roupas, usa internet e finaliza o trabalho final do mestrado dela. Ah, ela tem habilidades manuais para o artesanato, então fez um presente para a mãe dela, bem bonitinho, uma tábua para prender papeis e chaves. Eu não fiz nem comprei nada para minha mãe - não vejo ela e o pai desde dia 19 de março. Como entregaria, em segurança? Escrevi algo sobre isso para o Portal, ontem, sem citá-la (https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/6941195). Já a Rosilane é só entregar pra sua mãe, pela cerca, pois como não saímos de casa não tem risco de algo sair daqui pra lá, só ao contrário, pelos motivos que já escrevi anteriormente.

Era isso. Cinquenta dias e, graças a Deus, todo mundo ok na família. A próxima data agora é meu aniversário, dia 24 de junho, daqui uns 40 dias. A boa notícia é que me avisaram no serviço que os atestados, no meu caso, grupo de risco por diabetes 2, passam a ter validade de 30 dias, não mais de 15. Facilita, né.

Na foto, o Botafogo deitado e a Ponte Preta colocando a pata no pé da Rosilane - que ela e a Joana chamam de Bela, seu nome oficial. O Maurinho, o taxista que a deu pra mim, a chamava de Mixuruca. "Mixuruca, ô mixuruca" - ainda ouço na memória ele falar, com sua voz arrastada. Como deve estar o Maurinho? Não tenho o número do celular dele, só o do Celito, o profissional que usava quando estava trabalhando. Cara legal o Maurinho, boa gente.

Ah, o Celito voltou a trabalhar no táxi. Tem 78 anos, ele, mineiro aposentado. Deve estar precisando muito. Só ele e a mulher em casa, e cuidam da filha doente. Umas barras enfrenta o Celito, mas não reclama de nada, uma fortaleza ele, que homem verdadeiramente admirável. Descobri que eie voltara porque chamei o Vildomar para uma corrida, para buscar um atestado pra mim na Clínica. Ele não pode vir e mandou o Celito, daí vi que ele voltou a trabalhar no ponto. Estava atendendo só de casa, no celular, mas não o chamei para evitar expô-lo nesse momento. Bom, se ele precisa, vou voltar a ligar pra ele quando necessário. Que Deus preserve esse homem de grande valor, ele e a sua família.

E lembrei agora também do Nilson, que trabalhava com o Celito antes do Maurinho. Ele passou aqui por casa, semanas atrás. Estava de bicileta, pochete e sem máscara. Falou que fora em Porto Alegre ver o médico - fez operação, tem uns problemas de saúde - e que não havia ninguém na rua e nos ônibus por lá e tampouco na linha intermunicipal daqui de Charqueadas. Perguntei se não era melhor ele ficar em casa. Desconversou, disse que ia na filha, estava feliz, sorridente. Semana passada passou aqui perto de novo, caminhando, vi-o virando a esquina. Cara legal, tinha sempre uns sons legais em pendrive, internacionais antigas dos anos 1960 e 70, ouvíamos bem alto nas corridas que ele fazia, eh eh eh eh. Tudo de bom pra esse gente boa, todos acima dos sessenta: Celito, Maurinho e Nilson.

Tudo de bom pra ti que estiver lendo isso também. Fui. Tchau.


Publicado por João Adolfo Guerreiro em 09/05/2020 às 13h10

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