João Adolfo Guerreiro
Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.
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Presas
Data: 28/09/2010
Créditos:
Texto - João Guerreiro
Locução e edição - Guto Russel

Pois foi uma grande e grata surpresa receber essa dramatização em aúdio de um texto meu do Guto, craque daqui do RL. Realmente fiquei bastante contente, muita gentileza e generosidade da parte dele. Valeuzão Guto!
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (você deve citar a autoria de João Adolfo Guerreiro). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Presas

Estou novamente com fome. Desde que fugi está difícil de arrumar comida, pois me perseguem todo o lugar. Só a noite é segura.
Mas hoje não quero nem saber, vou ter que me arriscar. A fome é grande. Ainda bem que é fácil caçá-los. Mais fácil do que caçar as zebras. Ah, as zebras são difíceis de acertar, ás vezes escapam. Mas eles correm bem menos que as zebras. E tem a carne docinha.
Lá estão. É sempre assim: quando está quente eles vem para perto de uma árvore, em grupo, e ficam lá, à sombra, grunhindo a tarde inteira.
E como grunhem esses bichos! Não param um minuto! Levam sempre consigo aquelas coisas, que parecem pedaços das pernas deles, sei lá. Só sei que se agacham sobre elas e ficam lá, à sombra, grunhindo. Às vezes comendo e bebendo algo.
São esquisitos esses bichos. Fracos, correm pouco, não tem dentes grandes e tampouco garras. Tem a pele muito colorida, que muda todo dia e, até, várias vezes num mesmo dia. Parecem camaleões. Melhor, parecem cobras, pois descascam a pele. Só que descascam e, depois, recolocam a pele de novo. Estranho isso.
Mas estão lá agora. Vai ser fácil.
Deixa eu ver... Vai ser aquela ali. A fêmea mais gorda do bando. São as mais lentas e apetitosas, o que é uma bela qualidade para uma presa. Só não pode ser uma que tenha a crina branca, pois essas, embora sejam as mais lentas e fáceis de pegar, tem a carne muito ruim.
O único incômodo deles é que grunhem muito alto quando estão fugindo. Isso me incomoda. Mas tudo bem, são fáceis de acertar e morrem mais rápido que as zebras.
Agora, lá vou eu! Não adianta correr. Cruzes, como grunhem! Deixaram as pernas debaixo da árvore, como sempre.
Acertei o bote! Moleza! Puxa, como grunhe alto essa desgraçada. Pronto, quieta. O pescoço deles é curto, difícil de abocanhar, mas quebra na mordida. Nem precisa ficar apertando para asfixiar, como nas zebras.
Vou arrastá-la para longe e bem rápido. Terei que dar o máximo de mordidas no menor tempo possível, pois logo virá um bando deles, com aquelas pernas redondas, barulhentas, essas sim, velozes, mais rápidas do que eu. E trazem junto aquelas trombas que, quando explodem, atiram algo na gente que machuca.
Vou ter que comer rápido. Aqui. A parte de cima das patas tem pouco osso e bastante carne, sem vísceras. Perto do rabo também, e é bem macia. Aliás, mais uma esquisitice deles: não tem rabo. Ainda bem que o pelo desta aqui é bem fininho. Algumas tem um pelo mais grosso nas patas, mais difícil de rasgar e arrancar.
Coisa boa!
Quê isso? Ah, o barulho aquele. Eles estão chegando com aquelas patas redondas e velozes. Vou ter de ir embora correndo, senão eles me machucam. Depois caço outro.
Quando eu estava preso, eles sempre vinham me olhar. Davam-me comida. Justo eles, que me prenderam!
Agora os caço e os devoro. Mas eles também me caçam. É a natureza.
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 21/04/2009

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