João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Cecília, o encanto (e a fé) de Roma

"Ciça Cecília, padroeira de nosso som de cada trilha, proteja-nos dessa armadilha, de viver num mundo sem harmonia" - cantou o charqueadense Alberto André, pensando nela, em Cecília de Roma (ouça a canção “Ciça Cecília” no link ao final do texto). O que tem essa moça para, após milênios, ainda encantar compositores pelo mundo, inspirando seu canto? E não falo apenas do Betinho, pois Purcell, Haendell, Clark, Gounoud, Sains-Saens, Paul Simon, David Byrne, Brian Eno e David Groll também integram essa longa lista, dentre muitos outros. Pois é para responder a essa pergunta que escrevo essa crônica.

Cecília era a bela e culta filha de um nobre senador romano, provavelmente nascida no ano 150, sob império de Marco Aurélio (*1). Sua instrução aprimorada incluía filosofia, religião e música, sendo provável que tocasse algum instrumento, embora o certo é que possuía uma encantadora e afinada voz. "Oh, meu Deus" - certamente diziam todos que a conheciam, alguns aludindo a Júpiter e outros a Jeová, quando diante de tamanha formosura e predicados. Cecília era, sem sombra de dúvidas, "O" encanto feminino de Roma. E um tal de Valeriano, embebido de amor por tal criatura ("Oh, meu deus!"), conseguiu que o pai da moça a desse em casamento. Naquele tempo, bastava o consentimento paterno.


Contudo havia um detalhe fundamental e que não podia ser ignorado nessa história, sendo até, inclusive, o eixo por onde ela se desenvolveu: Cecília, mesmo recheada de atributos para o gozo do mundo da carne, queria apenas e tão somente as graças do mundo espiritual. Cristã desde pequena, fizera voto secreto de castidade, decidindo entregar sua vida totalmente a Deus e a Jesus, numa fidelidade que consagrava seu corpo físico como templo virginal ao Senhor. Entretanto, não era o que seu pai queria e ela era o que Valeriano queria, sendo o casamento realizado.

Há três versões correntes para o que aconteceu na noite de núpcias: primeiro, que Cecília disse a Valeriano ser uma virgem de Deus guardada por um anjo, que o mataria caso ousasse atentar contra sua virtude; segundo, que Cecília cantou as graças da virgindade para servir ao Senhor com tamanha beleza que tocou o coração do jovem, fazendo-o aceitar sua decisão; terceiro, que Cecília relatou toda a profundidade de sua conversão a Valeriano, além de fazer um anjo aparecer ao seu lado enquanto orava. Variações do mesmo tema. O fato é que Valeriano não transou com Cecília e ainda se converteu ao cristianismo. Uns dizem que naquela mesma noite, tamanho o encanto e carisma da moça; outros, que após levar uma conversa com o papa Urbano nas catacumbas, induzido por Cecília. Mais: contou tudo a seu irmão Tibúrcio e o converteu também. Agora eram os dois a dizer "Oh, meu Deus" pelas ruas de Roma, mas agora por Jeová, não por Cecília, eis que levados pelo encanto ao caminho da fé.

Claro que isso tinha tudo para dar problema. E deu. Valeriano e seu irmão começaram a enterrar cristãos mortos pelos romanos, o que era proibido. Não deu outra: prenderam-nos e levaram até o prefeito de Roma, Turcius Almachius (*2),  que lhes ofereceu perdão caso parassem de sepultar cristãos e adorassem a Júpiter. "Sem essa" - disseram os irmãos. Eram cristãos e não abandonariam sua crença. "Devem ter perdido a cabeça" - pensou, metaforicamente, o prefeito. E, já que era assim, mandou literalmente arrancá-las a machado. Perderam as cabeças, mas não a fé.

Cecília recuperou seus corpos e os enterrou nas proximidades da Via Ápia. O prefeito soube e mandou buscá-la, para se inteirar de quem era aquela que, além de ter virado a cabeça de dois nobres jovens romanos, ainda tinha a petulância de dar destino a seus corpos, igualmente afrontando a lei.
- Por Júpiter - disse, estupefato, ao ver a moça. Entendeu então como os rapazes haviam sido seduzidos, digo, convertidos ao cristianismo. Primeiro perguntou se ela adoraria a Júpiter.
- Não, sou uma cristã - respondeu Cecília, recusando-se a renegar sua fé.
"Oh, meu deus" - pensou. Não iria cortar aquela maravilhosa cabeça por uma coisinha dessas, não é mesmo.
- Tudo bem, mas onde estão as riquezas de seu esposo, Valeriano?
- Tudo foi doado para os pobres.
- Como assim?
Isso o prefeito não perdoou, pois o dinheiro de Roma era o dinheiro de Roma, mais sagrado que Júpiter. Ordenou que Cecília fosse torturada a fim de obter dela o verdadeiro paradeiro do tesouro, pois desconfiou ser tamanha generosidade apenas um engodo. Na verdade, ela dera tudo para o papa Urbano doar aos pobres. Os guardas destacados para torturar Cecília, quando a viram, exclamaram aquele característico "Oh, meu deus" e não tiveram coragem de executar a ordem; parece que alguns, inclusive, se converteram ao ouvir sua pregação e seu canto. "Oh, meu Deus!" – exclamaram, pela fé.

Turcius perdeu a paciência e determinou que a matassem colocando-a em água fervente, mas nada aconteceu. Após, enviou-a aos vapores quentes do balneário do castelo, para asfixiá-la. Incrivelmente, nada matou ou mesmo afetou fisicamente a moça. Furioso, ordenou sua decapitação. "Agora quero ver se ela não morre", pensou. O carrasco, ao vê-la ("Oh, meu deus"), fraquejou o machado de encanto. Desferiu três golpes no pescoço de Cecília, mas não conseguiu (ou não pode/não quis) separar a cabeça do corpo, embora a deixasse mortalmente ferida. Permaneceu em agonia por três dias, período no qual ficou ali, deitada, na mesma posição, visitada por meia Roma, conversando e atendendo a todos. Após receber a visita do papa Urbano, entoou o seu canto do cisne, louvando a Deus, e faleceu. Os cristãos, diante de tão bela e virtuosa criatura morta, não tiveram coragem de tocá-la, e providenciaram seu enterro em um caixão de cipreste de forma a que permanecesse na mesma posição em que expirara. E assim foi feito. Foi enterrada nas Catacumbas de São Calisto e, nas proximidades do local de seu martírio, construiu-se a Basílica de Santa Cecília, em Trastevere, em sua homenagem, no século V.
Sua morte se deu por volta dos anos de 176 e 180, segundo algumas fontes. Outras, todavia, dão o ano de 223, o que alteraria a data de seu nascimento citada no início. Ante tal miríade de versões, oriundas de lendas populares do século V e da Paixão de Cecília escrita no século seguinte, ficaremos, aqui, com todas. Tudo vale a pena, se a alma não é pequena, escreveu o poeta.

Devido às invasões de godos e lombardos, mais adiante, muitas das relíquias (*3) de santos foram transladadas ou escondidas por medida de segurança e, de algumas, com o tempo, esqueceu-se onde ficavam os jazigos, como foi o caso de Cecília. No século IX a santa apareceu num sonho ao papa Pascoal I (817 – 824). Logo após, seu túmulo foi encontrado e constatou-se que seu corpo, imaculado em vida, estava incorrupto (*4) na morte. "Oh, meu Deus" - exclamou o sumo pontífice. O esquife foi colocado dentro de um ataúde de mármore.

Em 1599, o cardeal Sfondrati novamente exumou seu corpo que, "Oh, meu Deus", permanecia incorrupto, eis que até o tempo, que a tudo corrói, não teve coragem de transformar em pó tamanha formosura. Convidou o proeminente escultor Stefano Maderno (*5) a fim de esculpir uma estátua de mármore em tamanho natural da santa, ali deitada, ainda incorrupta. "Oh, meu Deus" - exclamou o artista. Terminada a obra, recolocou-se Santa Cecília em sua tumba, com a tal estátua por cima a ornamentá-la.

Santa Cecília, padroeira dos músicos, foi uma das mais veneradas na Idade Média é a que possui maior número de basílicas em Roma. Quando a vi pela primeira vez no vitral da Igreja Nossa Senhora dos Navegantes (imagem que ilustra essa crônica), em Charqueadas, senti um encantamento espontâneo e exclamei "Oh, meu Deus". É, com certeza, o vitral mais belo da Navegantes. Hoje, 22 de novembro, é o seu dia. Suas lendas e Paixão, adaptadas nessa crônica, são muito belas. Entretanto, alguns sites retratam que a Cecília histórica como “uma senhora romana que deu uma casa e um terreno aos cristãos dos primeiro séculos”, sendo a casa transformada em igreja e o seu terreno em cemitério, onde a dona repousava no seu jazigo próximo a cripta fúnebre dos papas. Uns chatos esses “históricos”. Prefiro a Cecília das lendas e da Paixão, muito mais próxima da arte, daquela que “canta milagres de fé e entoa e encanta a livre melodia da vida”, como na canção do Betinho.




Ciça Cecília, canção de Alberto André: http://souzaguerreiro.com/audio.php?cod=5968
 
(*1) – Como há divergências de datação nas fontes consultadas, algumas citam o período do imperador Severo.
(*2)Outras fontes informam que foi ao imperador Severo.
(*3)Como os católicos se referem aos restos mortais dos santos.
(*4)É denominado como incorrupto o corpo que não se decompõe com o passar do tempo, mesmo que não tenha sido embalsamado, o que é considerado milagroso pelo catolicismo.
(*5)Outras fontes citam Carlo Maderno, seu irmão.
 
Fontes (por ordem de leitura):
SANTOS, José Carlos dos (Frei Zeca). Santa Cecília – novena e história. Paulinas, 2013.
WIKIPEDIA. Cecília de Roma. Internet.
CRUZ TERRA SANTA. Santos e ícones católicos: História de Santa Cecília. Internet.
CANÇÃO NOVA. Santo do dia: Santa Cecília. Internet.
ALETEIA. Santa Cecília, a jovem virgem e mártir cuja vida é um canto a Jesus. Internet.
PARÓQUIA DE SANTA CECÍLIA. História de Santa Cecília. Internet.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 22/11/2019
Alterado em 22/11/2019
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