João Adolfo Guerreiro

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"Malditas" professoras

Se existe uma categoria profissional que nos últimos anos tem sido economicamente pauperizada, socialmente achincalhada e, agora, por último, politicamente perseguida, são as professoras. Aqui no Rio Grande do Sul, acompanhamos há alguns anos esse processo com o magistério público estadual.

As professoras conseguiram avanços enquanto mostraram disposição de luta sindical como categoria. Recordo que, no governo Simon, realizaram uma vigorosa greve, à época sob liderança de professores como Hermes Zanetti e Paulo Egon, se não me trai a memória do longínquo final dos anos 1970, início dos 1980. Tiveram depois embates com o governo Collares, principalmente em torno do tal Calendário Rotativo, com o Cpers sendo presidido por Maria Augusta Feldemann. Pulemos os governos Britto, Olívio e Rigotto, quando a categoria já começou a demonstrar o cansaço de sua capacidade de mobilização e a ficar economicamente estagnada, e vamos nos ater a uma situação mais recente, que envolve, nos últimos governos, o chamado Piso Nacional.

Projeto do governo Lula, quando Tarso Genro era o Ministro da Educação, não foi implementado pelo governo Yeda Crusius. Genro, em campanha para governador visando a sucessão de Crusius, disse que faltava vontade política ao governo gaúcho para pagar o piso. Elegeu-se no primeiro turno, deixando Crusius como a "ferramenta" da eleição! Não pagou o Piso Nacional durante o seu governo. Não se reelegeu. Perdeu de lavada no segundo turno para o próximo, José Ivo Sartori, que, por sua vez, se deu ao luxo de debochar das professoras em campanha: "Piso é na Tumelero", disse, às gargalhadas, aquele que ficaria conhecido como o Gringo Caloteiro, por iniciar o parcelamento dos salários das professoras e dos demais servidores estaduais. Assim, o Gringo, além de continuar com a pauperização da categoria, iniciou o seu achincalhe, via o marcante deboche.

Não se reelegeu. Perdeu no segundo turno para Eduardo Leite, que, durante a campanha, se comprometeu em, após seu primeiro ano de governo, pagar em dia o funcionalismo. Se cumprirá sua promessa ainda é algo a se aguardar, mas o que sabemos é que ele agora enviou um pacotaço à Assembléia Legislativa - AL/RS, atingindo direitos de várias categorias de servidores e, especialmente, o Plano de Carreira das professoras. Ou seja, nem começou a pagar em dia e já está tirando direitos do pessoal. E as professoras, ainda sem piso, ficarão sem plano (ou com um plano pior que o anterior, o que dá quase no mesmo).

Óbvio que as professoras não gostaram e o Cpers chamou uma greve, mais uma igual às outras que aconteceram nas últimas décadas, em que a categoria, além de tudo, e é bom que ninguém esqueça disso, terá de recuperar os dias letivos ao final. As anteriores, via de regra, mostraram sua fragilidade sindical, como nos indicou a adesão insatisfatória que tiveram. "E agora, tchê?", como diz o Aroldo de Souza quando a Dupla Grenal faz gol, "as bandeiras do Cpers estão tremulando, tremulando, tremulando torcedor do Brasil"? A reação urge, pois o placar histórico é adverso, eis que a categoria está perdendo por 3x0: pauperizada, esculachada e, hoje em dia, também perseguida. Acusadas de doutrinadoras pelas forças políticas ocupantes do governo federal, são vítimas de campanhas acusatórias nas redes sociais e de projetos que visam monitorá-las em sala de aula. Estão à mercê do fundamentalismo neoliberal de extrema-direita. Antes fosse o fundo do poço, mas não é.

O desemprego estrutural tecnológico que cada dia aumenta em progressão geométrica, ampliado pela revolução digital, atinge também em cheio a educação pública e privada. Para que pagar professores em aulas presenciais, quando as facilidades da EAD estão aí a reduzir custos com pessoal e aumentar lucros na área? E é nesse contexto que assistimos o início da greve do magistério estadual, ontem. Uma paralização que não é apenas por ganhos, tampouco somente por manutenção de direitos, mas sim por sobrevivência e dignidade. Pode parecer pouco, mas é vital.

É uma luta desigual, eis que em outubro de 2018 elegeu-se uma Assembléia Legislativa com perfil conservador nos costumes e liberal na economia, ou seja, que pensa na austeridade macroeconômica a favor do capital em detrimento do trabalho. Logo, é bem possível que essa greve seja, assim como as outras, massacracada pela grande mídia liberal e que o governo Leite vença na AL/RS, sendo os projetos, em boa parte, aprovados. É o signo desses tempos. A questão é: o magistério vai endurecer o jogo dessa vez, realizando um movimento paredista de peso, visando a redução de danos e o seu gol de honra, para apostar em um futuro saldo qualificado num jogo de volta, num próximo governo, sabe-se lá quando, com perfil trabalhista?

Temos ciência de que as professoras possuem magia para almaldiçoar cada governador ou governadora que as assole, impossibilitando sua reeleição. Todavia, como ela não é suficiente para conduzirem ao Piratini alguém que lhes seja aliado, tornam-se, mais do que em qualquer outro tempo no Brasil, malditas. A caça às bruxas está na ordem do dia, embora elas, ainda, estejam à solta, felizmente. Como a maioria da população elege seus algozes, sinaliza de que lado está, em termos gerais, ou seja, ajuda a trazer lenha para a fogueira da inquisição neoliberal contra as professoras.

É uma conjuntura ruim, mas as vassoras permanecem voando nas noites de lua cheia, esperando a valorização da sociedade a fim de voltarem a ser o que sempre foram, os anjos da guarda de uma educação de qualidade para os nossos filhos. Para isso é que farão essa greve, para retomar sua unidade visando a própria sobrevivência e para abrir os olhos da população, principalmente daquela parcela menos aquinhoada e que mais precisa e precisará da educação pública.

Os que de nós viverem, verão. Boa luta, gurias. E boa sorte. Vocês vão precisar.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 18/11/2019
Alterado em 19/11/2019
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