João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Será que elas são?

Na quarta-feira novamente fui na 65ª Feira do Livro de Porto Alegre. Ao contrário da segunda-feira, era dia de sol e estava quente. Não é o meu forte. Assim, aproveitei para ir no Arcoflex do Rua da Praia Shopping ver o novo Exterminador do Futuro. E, mesmo com o calor, entrei em duas geladas, ou melhor, três, se contar o ar condicionado do cinema.

No shopping, segui direto para o terceiro andar comprar meu ingresso para a sessão das 14 horas. Feito isso, desloquei-me até o banheiro. Vi a placa de "WC Masculino" e entrei. Ao olhar para o lado, à esquerda da porta, congelei: havia uma mulher se maquiando em frente ao espelho. "Puxa vida, que gafe, entrei no banheiro errado" - pensei. Saí rápido e conferi novamente a placa. Não me enganara, aquele era o banheiro para os homens mesmo. Só então me dei conta de que vira um senhor ao lado da guria, o que, devido ao choque, nem processei na hora. Voltei. Lá estava a moça se maquiando, o velhinho e, à direita, uns homens nos mictórios. Mas o que aquela guria estava fazendo ali, ora bolas? Em um segundo já deduzi que aquela mulher devia ser um homem. Mas será o pé do bicho que eu me enganara tanto assim?

Dei mais uma olhada. Puxa vida, ela não parecia mesmo ser um homem, nada ali o denunciava. Rosto, corpo, gestos, tudo era feminino. Então minha razão começou a travar um diálogo com minha percepção: "Ora, se esta aqui, é homem!" "Mas parece muito com uma mulher!" Tinha por volta de vinte e poucos anos, 1.65 metros, aproximadamente, cabelos longos e castanhos, ombros curtos, cintura fina, quadril largo. Nesse momento me saiu uma ideia: seria uma pegadinha de televisão? Vasculhei o ambiente com o olhar, para ver se detectava alguma câmera escondida, algo assim, todo ressabiado. Nada que se percebesse. Ou a guria entrara ali de curtição, passando-se por travesti, apenas para causar? Sei lá, o fato é que eu estava abismado da minha percepção estar tão confusa. Vai ver que foi desse jeito que o Ronaldo Nazário confundiu um André com uma Andréia, não é mesmo?

Bom, fiz rapidamente o que precisava fazer ali e saí. Hoje, mesmo fora do mundo virtual, tudo é possível. Mas não seria a única situação daquele início de tarde. Dirigí-me para o cinema, comprei uma pipoca e um refri zero e caminhei em direção à entrada, onde um senhor careca de camisa e uma jovem toda de azul marinho estavam, ela bem ereta. Achando que fosse a funcionária da portaria, perguntei:
- Que horas vai abrir?
- Não sei, não vi nenhum funcionário por aqui ainda.

Congelei, mas reagi rápido.
- Ah tá, obrigado, moça.
Ela ficou olhando, apenas desconfiando que eu a confundira com uma funcionária. Ainda bem que não estava com o bilhete na mão para entregar, daí não daria para disfarçar o constrangimento do mal entendido. E havia um agravante contra mim na situação: ela era afrodescendente. Imagina, que furada? Na verdade foi principalmente a forma como ela estava vestida que me confundiu, mas o fato é que, nos shoppings, tu vê maioria de afrodescendentes trabalhando em funções de limpeza, segurança, bilheteria, essas coisas. Andando pelo shopping ou atendendo nas lojas, tu só vê praticamente gente branca. Então, em parte, fui obrigado a reconhecer para mim mesmo que a cor da pele dela também influenciou no meu julgamento precipitado e equivocado, mesmo que de forma não determinante, eis que se ela não estivesse trajando algo que pensei ser um uniforme, não a tertia abordado com aquela intenção. Essas coisas estão tão introjetdas na gente que nem percebemos.

Bom, aberto o cinema, lá fui eu para a última fria da tarde, ou seja, a sala. Como estava usando apenas uma camiseta de time de futebol, senti um pouco de frio. O filme é bom, para quem é fã e gostou dos anteriores. Digo até que é bem melhor que o quarto e melhor que o quinto. Tri ver novamente a Sarah Connor em ação e ainda em forma para o combate, embora tão enrugada, mas tão enrugada que poderia se chamar Ruga Connor, agora. Parece que o estresse e o sol da califórnia não fizeram bem para a heroína ao longo das décadas. Os produtores do filme deveriam ter levado em conta que a atriz que a interpreta é a icônica "Linda" Hamilton, ora bolas. O Arnold também está na tela, no mesmo papel de sempre, novamente reciclado, embora satisfatório. Aparece uma nova personagem, uma soldado do futuro "aprimorada", tipo uma ciborgue, que veio enfrentar o exterminador da vez.

Claro que eu olhei a ciborgue e lembrei da guria do WC. Realmente, assim como no cinema, na vida real também já está difícil reconher o que uma pessoa de fato é, seja pelas tranformações físicas possíveis via medicina ou pelos estereótipos socias arraigados.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 07/11/2019
Alterado em 07/11/2019
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