João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Voltei a acreditar no futebol

Embarquei no Vitória das 08h15min de Charqueadas para Porto Alegre, no lado direito do carro, poltrona 31. Quando o ônibus já estava próximo da ponte do Guaíba, vi pela janela uma cena que, não sei o motivo, comoveu meu coração futebolístico.

Na frente daquela tripa de casas de gente pobre, tem um espaço de terra onde fizeram um campo de futebol de chão batido. As goleiras de madeira, com redes de um azul bem chamativo. Quem passa ali seguido às percebe fácil. Na primeira goleira (no sentido de quem vai para Porto Alegre), vi, de soslaio, que uma penalidade máxima seria cobrada. Eram dois guris, os únicos ali naquele momento, às 09 horas, com uns 10 anos de idade, creio. O menor estava se preparando para chutar, tomando distância.

"Ah, tomara que dê tempo para ver isso" - pensei. Fui me virando na poltrona enquanto o guri corria e, de direita, mandou no ângulo direito do goleiro, que ainda tocou na bola, mas não impediu que ela "estufasse os cornéis da cidadela" a qual defendia. E a rede balançou, azulmente linda! Aquilo me deu uma alegria não sei de onde e que veio não sei porque. E os dois sumiram do alcance da visão possível do meu quadrado de vidro em movimento.

O futebol profissional. Hoje tem Flamengo x Grêmio pela semifinal da Libertadores da América, num Maracanã que estará lotado. Não sei o resultado de um jogo que ainda irá acontecer, mas que vocês, que estão lendo esse crônica no Portal de Notícias na sexta-feira, já conhecem há dois dias. Estou aqui, tarde de quarta-feira, embaixo da árvore, na frente de casa, escrevendo-a, enquanto o cachorro e a cadela latem para quem passa na rua e a gata cinza e peluda tenta pular no meu colo. Ontem de noite fui assistir a outra partida da semi, Boca 1X0 River, no Paredão. Bebi três chopps e comi um petisco de pedaços de galinha à milanesa enquanto olhava o River Plate perder em plena Bombonera lotada, mas se classificando para a final no Chile pelo saldo de gols. Preferia o Boca, para repetir a final de 2007, dando revanche para o Grêmio.

Nesses jogos, alguns jogadores ganham por mês mais do que o valor que seria nescessário para um jovem que desenvolveu uma doença rara fazer um tratamento de seis meses para sobreviver, ou seja, algo em torno de 500 mil reais. Uau syl! O salário de uns custa igual a vida de outros. O futebol profissional é uma máquina de fazer dinheiro que a gente azeita, de uma forma ou de outra, enquanto as pessoas que ganham pouco ou que estão desempregadas buscam salvação no SUS.

Agora, nesse exato momento, 15h13min, dou-me conta de onde veio a alegria que senti: do meu passado, gravado na memória. Um dia, lá na Colônia, na frente da minha casa, eu e mais dois amigos fizemos uma disputa de penalidades. A "goleira" eram dois tijolos. Não recordo se foram três ou cinco pênaltis para cada um, mas sim que ganhei dos dois. Cheguei orgulhoso em casa e contei todo feliz para minha mãe que naquele dia eu descobri que era melhor que eles, pois os vencera. Ela apenas sorriu.

Agora, a esperança no futebol que senti ao ver os guris jogando eu não sei o que é. Mas não deixaria de escrever essa crônica só por causa disso, não é mesmo? Não saber faz parte da vida e a maioria dos textos literários são escritos a propósito do desconhecido, expressando dúvidas antes de certezas. E esperança é esperança só por ser esperança, não precisa explicação racional, só de vontade, às vezes. Ponto final.

Vou na locadora buscar uma coca zero e um chocolate diet, deu vontade. Tá muito bom aqui embaixo da árvore. Os cães derem uma trégua pros ouvidos; marquei bobeira e a gata acaba de pular no meu colo. O jogo vai passar direto na RBS TV. Eu e os meninos vamos vê-lo, então. Pra qual time será que eles torcem? Sei lá! O que eu sei é "quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo". O céu está com um azul límpido. Fui.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 23/10/2019
Alterado em 23/10/2019
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