João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Cem anos de bola, polenta e vinho

Desde quando comecei, ainda guri, a acompanhar pra valer o Campeonato Mais Difícil do Mundo, ou seja, o Gauchão, no ano de 1977, um dos times feras do certame era o Esportivo de Bento. Pudera, foi Campeão do Interior nas edições de 1970, 71, 76 e 79, neste último, inclusive, sendo vice-campeão Gaúcho, superado apenas pelo Grêmio. Hoje o Clube Esportivo de Bento Gonçalves completa 100 anos de existência.

Naquele 1979, em maio, contra o mesmo Grêmio, lá em Bento, no estádio Montanha dos Vinhedos (com capacidade para 15 mil torcedores), aconteceu um episódio que gravei na memória: o Jogo da Neve, quando as equipes se enfrentaram com temperatura de 2 graus negativos e, obviamente, sob neve. Uau syl, aquilo foi marcante, embora o jogo tenha ficado num xonho 0x0, placar típico de Gauchão, onde o clima inóspito e o estilo duro de marcação são características, dentre outras, que o tornam O Mais Difícil do Mundo.

Bento é uma das belas cidades do Rio Grande, situada numa das mais (senão a mais) belas regiões do estado, a Serra Gaúcha. Assim como Torres e o Itaimbezinho/Cânion Fortaleza, em Cambará do Sul, a região é visita obrigatória para os riograndenses. Poderia falar de Gramado e Canela, as mais conhecidas cidades de lá, mas cada uma é mais legal que a outra. Vide a vizinha Pinto Bandeira, da qual o meu amigo jeronimense João Pizzio foi “herói” e prefeito. A primeira vez que fui a Bento, durante um inverno, andei pela Rua Marechal Deodoro da Fonseca, arborizada, com suas calçadas largas com construções de madeira turísticas pelo passeio público, e senti-me como se estivesse na Europa. E olha eu nunca fui na Europa, eh eh eh eh. Contudo, supus, pelas imagens do Velho Continente vistas na TV, que ela lembrava muito uma via de cidade européia. Nunca esqueci. Afinal, e finalmente, estava na terra do Esportivo que, naquele ano, estava em baixa, fora de competições.

Mas bah, me emocionei uma barbaridade falando da Serra e de Bento que quase perco o fio da meada desta crônica! Voltemos: O Esportivo foi fundado em 28 de agosto de 2019, nessa bela terra de colonização italiana, cultivadores de uva e bebedores de vinho. Além da já mencionada boa fase nos gauchões na década de 1970, nos anos 80 o clube participou três vezes da Série B do Brasileiro, em 1983, 1987 e 1989, porém nunca passando da fase inicial de grupos (o campeonato possuía fórmula diferente naquele tempo). Igualmente sem grande destaque, esteve na Série C em 1988, 2004 e 2007, ano no qual realizou sua melhor campanha em competições nacionais. Em 2005 disputou a Copa do Brasil.

De 1998 para cá, o Alviazul esteve na Divisão de Acesso do estadual em oito oportunidades, sendo campeão em 1999 e 2012 (quando teve excelente desempenho, ganhando o apelido de Polenta Mecânica) e vice esse ano, o que lhe garantiu a volta a Série A do Mais Difícil justamente em seu centenário, após cinco anos. E foi no ano de seu último rebaixamento, 2014, que ocorreu um fato polêmico na história do clube: numa partida em casa contra o Veranópolis (*), o carro do juiz Márcio Chagas da Silva foi depredado, com bananas sendo jogadas nos bancos e usadas para entupir o escapamento. O ato foi considerado racista, repercutiu muito na imprensa estadual e nacional, acabando o Zebrão condenado na justiça esportiva com perda de pontos e de mandos de campo.

Mas tudo isso é passado, e o agora centenário Esportivo poderá retomar sua grandeza, reeditando o Clássico da Polenta com os gringos do Caxias na primeira divisão do Campeonato Mais Difícil do Mundo. Sorte minha, que, assim, poderei vê-lo na Arena Grêmio, novamente.
 

(*) – Não resisti: por falar em Veranópolis, município vizinho de Bento, não poderia deixar de mencionar, primeiro, a vista exuberante que se tem da ponte Ernesto Dornelles, sobre o Rio das Antas, zona limítrofe. Segundo, passando por ela e chegando na Terra da Longevidade, encontramos um curioso restaurante giratório de 360°, único no Brasil, o Mascaron, que fica no topo da Torre Mirante da Serra (80 metros de altura). Dá para ser ver todos os municípios da região de sua plataforma de observação, equipada com lunetas e binóculos.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 28/08/2019
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