João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Larri "Sampaio Corrêa" Lopes

Estava eu na lancheria da Rodoviária de Charqueadas, uns anos atrás, e entrou o colorado Larri vestindo a tricolor do maranhense Sampaio Corrêa.
- O Larri, não sabia que tu também simpatizava com o Sampaio Corrêa?
- É. Fui lá no Maranhão e comprei.

Não sei exatamente há quanto tempo eu conhecia o Larri, mas, furungando na memória, essa aliada traiçoeira, penso que foi lá por 1996, 1997, quando eu vim morar aqui no Centro. Nos encontramos pelos comícios da vida e fomos conversando, coisa e tal. Larri sempre foi um cara legal, de muito boa conversa, e tínhamos assuntos convergentes. Era um assalariado com consciência política de classe e roqueiro das antigas, como eu. Nunca fomos na casa um do outro, mas seguido a gente se cruzava pelo Centro, via de regra na esquina do Tiradentes, na Lancheria da Rodoviária, na Banca do Povo e nos atos sindicais em defesa de direitos trabalhistas, tanto em Charqueadas quanto em Porto Alegre.

Ele sempre inteligente, crítico, ligado, emitindo ponderada e educadamente seus pontos de vista. Na Banca do Povo, da saudosa dona Loivaci, nos víamos frequentemente nas sextas-feiras, quando chegavam as revistas e ele ia lá comprar as dele e eu as minhas. Líamos a Rolling Stone, conversávamos sobre rock'roll, assunto que o Larri sabia muito. Como ele possuía cabelos claros e olhos azuis, eu o chamava de David Bowie. Ele curtia.

Naquele dia em que ele estava com a camisa do Sampaio na Lancheria da Rodoviária, pedi pra ele comprar uma pra mim quando fosse de novo no Maranhão, onde tinha uma namorada, que eu pagaria ele na volta. Ficou tudo certo. Na primeira vez que retornou para lá aguardei, ansioso, mas ele voltou sem a camiseta. Disse que fora assaltado e ficara sem dinheiro ou cartão, impossibilitando a compra. Uma pena. Uns tempos depois, o Sampaio Corrêa veio aqui em Porto Alegre enfrentar o Inter pela Copa do Brasil e conversamos sobre irmos juntos no Beira Rio assistir a partida. O lance michou porque eu estava de plantão e não consegui troca. Uma pena. Imagino os altos papos que a gente teria batido lá, um gremista e um colorado, ambos improváveis simpatizantes charqueadenses do maranhense Sampaio Correia, bem possível que fossemos os únicos (sei que o Oniro Camilo tem uma camisa do SC, mas ele mora em Butiá).

Só que agora eu fiquei sozinho nessa, pois o Larri morreu no dia 31 de agosto, dia do aniversário do Harry Potter. Sei disso porque estava com a minha esposa num bar temático dessa pergonagem, que fica em Porto Alegre, e vi a notícia pelo Facebook, numa postagem do Paulo, irmão dele, e depois os sites da região noticiaram, pois ele era uma figura pública. Eu estava, inclusive, vestindo uma camisa do Sampaio Corrêa, que comprara no Brechó do Futebol, uma lojinha onde tu encontra camisa de tudo quanto é time do Brasil e do mundo, também ali na capital. Comprei ela agora no início de julho e postei no dia 7 uma foto com ela no Face, marcando o Larri, que curtiu e comentou.

A gente "se via" regularmente nessa rede social, eu de tempos em tempos (sou errático em usar internet) passava na timeline dele pra ver as novidades da luta classista no meio sindical, pois ele era do Sindicato dos Mineiros, muito ativo na linha de frente do sindicalismo gaúcho e sempre postava muita coisa sobre o que estava acontecendo. Gostava também de publicar um "bom dia". A última coisa que curti e comentei no Face dele foram duas postagens minhas que ele compartilhou no dia 9, sobre o Juremir Machado da Silva e sobre a seleção dos melhores jogadores da Copa América. Depois disso ele teve um infarto e só voltou à rede na tarde do dia 15. Achei que ele estava melhor e que logo nos encontraríamos nas curvas e nas quebradas do Centro.

Bom, agora o Centro de Charqueadas ficou um pouco mais sem graça, eis que um dos caras legais do pedaço não vai mais estar lá. E, de finaleira, lembro um causo entre nós acontecido ali na Banca do Povo. Estava eu dando discurso de "pai-brabão", dizendo que não ia dar mole para os caras que futuramente viessem a namorar minha filha, esse tipo de coisa. Daí o Larri saiu com essa:
- O João, quem tem filha mulher passa de consumidor para fornecedor, não tem jeito.
Rimos muito, eu, ele e a dona Loivaci. O que ele quis me dizer, de forma bem humorada, era que criamos os filhos pro mundo, não pra gente, Nunca mais esqueci disso e, sempre que encontro um outro camarada "brabão" por aí, digo o mesmo pro cara.

Grande Larri. Se foi muito cedo, aos 59. Vai fazer falta, pros dele, pra gente, pro Centro e pra luta classista. Esse mês Woodstock completará 50 anos, imagino que a gente ia se pechar por aí e ter muito assunto sobre essa efeméride. Fica com Deus, cara.

PS - O Sampaio Corrêa já está classificado para as quartas-de-final da Série C do Brasileiro. Com 30 pontos em 15 jogos, é líder do grupo A. Os vencedores do mata-mata das quartas se classificam para a semi-final e garantem vaga para a Série B 2020. O Larri ia curtir e a gente ia bater um outro papo legal sobre isso também.
 
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 06/08/2019
Alterado em 06/08/2019
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