João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Tarciso*, o Flecha Negra

A gente percebe que o nosso tempo está passando quando as figuras sociais de destaque do mesmo partem desse plano físico. Essa semana foi Tarciso, aos 67 anos, uma morte abaixo da expectativa de vida atual.

Quando comecei a torcer por futebol e aderi ao Grêmio, em 1977, Tarciso era o titular inconteste da camisa 7, o ponta-direita apelidado de Flecha Negra pelo locutor Haroldo de Souza devido sua grande velocidade. Muito carismático, foi o jogador com o qual mais me identifiquei. Como esteve presente naquelas inesquecíveis conquistas do Gauchão de 1977 (após oito anos na fila) e dos títulos Brasileiro, Libertadores e Mundial no início dos anos 1980, era até natural isso. Na época em que o atual treinador Renato despontou no Tricolor, até fiquei arredio por ele justamente destronar meu ídolo Tarciso da ponta, embora o time fosse armado com ambos no ataque.

Tarciso chegou em 1973 no Olímpico e ficou até 1976 sem colocar faixa no peito. Período de ouro do Inter, bicampeão nacional e octa gaúcho, tempos difíceis para o Tricolor. Foram 13 anos de Grêmio, tornando-se o atleta que mais vestiu a camisa do clube (721 vezes, até 1985) e seu segundo maior goleador (226 gols), feitos alardeados pelos meios de comunicação. Detalhe: ele nasceu em 15 de setembro de 1951, ou seja, fazia aniversário no mesmo dia que o Grêmio.

Tive o prazer de conhecer o Flecha Negra pela primeira vez num evento do Consulado do Grêmio num dos Rodeios de Charqueadas. Simpático, atencioso, uma pessoa simples. Fiquei impressionado com sua excelente forma física, parecia um cara de 18 anos. E não foi só dessa vez. Em dezembro de 2009 eu era um dos 30 mil torcedores que foram ao Olímpico assistir a despedida de Danrlei, quando o time da Libertadores de 1995 venceu por 4x3 os Amigos do goleiro. Havia um ponteiro direito veloz que à distância não reconheci. Perguntei para alguém a meu lado: “Quem é aquele rapaz ali pela direita?”. “Tchê, aquele ali é o Tarciso” – respondeu. Fiquei novamente impressionado: aos 58 anos ainda voava em campo, tanto que os dois primeiros gols dos Amigos nasceram de jogadas de ataque dele finalizadas por Rodrigo Mendes.


A última vez que o vi pessoalmente foi na noite de autógrafos do livro “Heróis de 1977”, de Daniel Rubin, na Hamburgueria 1903 no shopping Praia de Pelas, em setembro do ano passado. Ele e outros jogadores estiveram lá relembrando os 40 anos daquela conquista importante para o Grêmio e, para mim, muito especial, pelo motivo biográfico que citei acima. Tarciso mantinha o carisma e a simpatia de sempre.

Lara está no hino do Grêmio, Everaldo é uma estrela na bandeira e Renato vai virar estátua. Sei que existem dirigentes e jogadores com grande importância na história do clube, mas bem que Tarciso também poderia receber alguma homenagem duradoura, não é mesmo? Treze anos e 721 jogos é uma marca ímpar e muito significativa.


(*) – A imagem que ilustra essa crônica é da coleção Futebol Cards, lançada em 1978 pelo chicle Ping Pong. Foi a melhor coleção de futebol que já tive, eram cartões como esse, onde atrás havia um texto com os dados, biografia e curiosidades sobre cada jogador. Tem no Mercado Livre para vender e também se encontra numa banca lá no shopping João Pessoa, em Porto Alegre.

TEXTO PUBLICADO NO SITE DO JORNAL PORTAL DE NOTÍCIAS: https://www.portaldenoticias.com.br/ler-coluna/807/tarciso-o-flecha-negra.html?fbclid=IwAR0QZuFNHUvMegAVkTsDdfhpHctiPvW17WqbmaxycDWlKkH4LPUAJfVARnE


 
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 07/12/2018
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