Textos


O motim da PEJ, o Titanic e a Eunice

Em toda manhã que eu vinha de Santo Antônio da Patrulha, onde trabalhava, passava por Porto Alegre e ia ao Imperial pegar a primeira sessão de cinema à tarde. Adorava o Imperial, ele ficava na Rua da Praia, era um cinemão, enorme, com uma tela gigantesca. E assistia Titanic ali.


O filme havia sido lançado exatamente num 16 de janeiro no Brasil, em 1998, portanto, há 20 anos. Não se achava vaga em nenhuma sessão na primeira semana em cartaz em Porto Alegre, filas e mais filas. Já devia ser no final de janeiro ou no início de fevereiro, não recordo bem de cabeça (não acho a agenda que usava na época), quando fui ver uma sessão de Titanic (aquela cena pós-naufrágio, com a noite estrelada, ficava linda naquele telão do Imperial, mesmo sabendo que era um filme sobre um fato real, onde muita gente havia morrido de verdade).

Ao terminar, fui saindo pra ir pra rodoviária pegar o Vitória pra Charqueadas e, olhando numa das fileiras, estavam lá as três, com os olhos cheios de lágrimas: a Bárbara, a Emília e a Eunice. Pareciam as irmãs Cajazeiras, da novela O Bem Amado (quem aí recorda?). Nunca esqueço esta imagem. Charqueadense sempre se econtra por aí, em todo o lugar, nas situações mais inusitadas, quanto mais num cinema da capital gaúcha, não é mesmo.

Voltando 30 anos no tempo, em 5 de janeiro de 1988, lembro que a mesma Eunice foi refém no motim da Penitenciária Estadual do Jacuí (foto acima). O Ratão, músico conhecido de Charqueadas, era outro dos reféns, ele era servidor penitenciário. Um episódio triste aquele. Três agentes penitenciários morreram: Marcos, Chumbinho e Normelina. Pessoal ali da Colônia. Eu nasci na Colônia, mas não morava mais lá desde 1979. E a Eunice, que também era agente na época, era da minha turma de juventude, lá da Super Quadra 2 da Cohab (atual Sul América). Ela namorava o Márcio, meu amigo, nós estávamos com exatos vinte anos, ela era um pouco mais velha, devia ter uns 24, 25, por aí.

Depois do motim ela foi readaptada para a Educação, o pessoal chamava ela de professora Eunice. Linda a Eunice, eu me dava muito bem com ela, era uma pessoa bem legal, personalidade forte, um sorriso lindo, morena de cabelos escuros. Tenho excelentes lembranças da pessoa dela.

Parece mentira que ano que vem fará 10 anos que ela morreu. Um baque pra gente. Foi a primeira pessoa daquela nossa turma que faleceu. Recordo de estar sobre a área em frente da minha casa, depois do enterro dela, e a sensação ruim que me acometeu. Puxa vida, era verdade, a gente morre mesmo. Tu vê, a Eunice. Tão forte, tão bonita! Como podia ser? A percepção de nossa finitude é asfixiante e, sua sensação, sufoca.

Trinta, vinte, dez anos atrás. Viver é sobreviver.



Crônica publicada no site Portal de Notíciashttp://www.portaldenoticias.com.br
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 17/01/2018
Alterado em 03/02/2018
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