João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Sociedade dos Poetas Mortos:
o veículo e a mensagem


Impossível para grande parte das pessoas da minha geração não ficar chocada com o suicídio do Robin Williams. Ele atuou em grandes obras cinematográficas como Amor Além da Vida (1998), Patch Adams (1998), Gênio Indomável (1997) e, principalmente, no paradigmático Sociedade dos Poetas Mortos (1989).

Ouvi falar de Williams pela primeira vez quando do lançamento de Bom Dia, Vietnã (1987), uma obra de muita repercussão à época e que alavancou definitivamente sua carreira como ator de comédias. Mas diria que seu grande filme foi realmente Sociedade dos Poetas Mortos, onde faz um papel dramático, um heterodoxo e carismático professor de uma tradicional escola americana em 1959.

“Carpe diem” seria o subtítulo ideal para o filme e, quem regula de idade comigo, sempre que ouve a sentença pensa imediatamente nele e em Williams. “Aproveitem o dia”, o significado dessa expressão latina que o professor de literatura inglesa John Keating, interpretado por Williams, apresenta aos seus alunos logo no primeiro dia de aula, numa das cenas iniciais e, com certeza, a mais marcante de Sociedade dos Poetas Mortos. Ele leva seus pupilos para um dos corredores da centenária instituição de ensino, onde estão penduradas as fotos de turmas antigas que por ali passaram. Não conto mais, não estragarei o gozo de quem ainda não viu “Sociedade...” e pretenda fazê-lo.

Então volto a surpresa implícita no início desse texto: Logo ele, Robin Williams? Nossos ídolos são de carne e osso, e quem bom que assim o sejam, para que não os elevemos a condição ilusória de semideuses. Fica sua obra, sua mensagem, o possível ao “humano, demasiado humano” (Nietzsche). E, respondendo a questão, devemos distinguir o veículo da mensagem.

Um pintor ou um escultor, por exemplo, são artistas que invariavelmente abarcam tanto a condição de veículos quanto a de formuladores da mensagem na criação de uma obra de arte. Um cantor/compositor, como Chico Buarque de Holanda, igualmente. Um ator/diretor/roteirista, como Sylvester Stallone, idem. Esses, sim, tem um a relação íntima e pessoal com a mensagem das obras por eles elaboradas e que guardam plena sintonia factual com a percepção do público sobre elas.

O ator, no caso Williams, era o veículo principal em “Sociedade...”, eis que a mensagem estava com sua concepção dividida entre a direção de Peter Weir e o roteiro de Tom Schulman. Entretanto, assim como nos referimos a uma canção pelo cantor que a interpreta, e não pelo compositor que a criou, comumente relacionamos a mensagem de um filme ao ator que o protagoniza. Da mesma forma também o foi com os outros filmes aqui citados de Williams, mesmo que, nesses, ele tenha sido sempre o veículo, nunca o autor da mensagem. Logo, reformula-se a pergunta: Por que, Robin Williams? A essa, por respeito à privacidade alheia, não precisamos responder, eis que não traria nenhum benefício para além da curiosidade mórbida e fútil.

“Oh Captain! My Captain” – era o verso inicial do poema de Walt Whitman citado pelo professor Keating aos seus discentes, facultando-os o direito de assim lhe chamarem na intimidade e cumplicidade da relação professor-aluno por ele proposta. Nessa linha, “Sociedade...”, o título já avisa, respira poesia. “Colham enquanto podem seus botões de rosa / A velhice vem voando / E essa flor hoje viscosa / Amanhã estará murchando” é outro trecho de um poema de Whitman central na mensagem do filme, associada ao “carpe diem” e que encerra a grande lição transmitida a muitos por Sociedade dos Poetas Mortos.

Que fique a obra como legado de uma vida produtiva a serviço da arte.


Texto publicado na seção de Opinião do jornal Portal de Notíciashttp://www.portaldenoticias.com.br
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 18/08/2014
Alterado em 18/08/2014
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